sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Apontamentos de Filosofia Antiga


Nota prévia: este texto destina-se essencialmente aos estudantes que se iniciam no estudo da Filosofia Antiga.


Segunda Parte


Os Filósofos Pré-Socráticos


1. Os milésios


1.1. Tales

Tales, natural de Mileto, nascido no século VII mas cuja actividade se deve processar essencialmente no século VI, não deve ter deixado qualquer obra escrita.

Assim não é para estranhar que pouco conheçamos da sua vida e pensamento.

O tema da filosofia de Tales é a physis. A physis é a substância primordial, a génese das coisas existentes.

O problema colocado por Tales não é novo: é a questão das origens. O filósofo quer saber qual é a substância que vai originar o universo.

Tales vai responder que a origem das coisas é a água. Com isto quer dizer que é a partir da água que o universo, com tudo o que ele encerra, se vai formar.

É de presumir que Tales tivesse traçado a evolução do universo: simplesmente não temos informação que a documente.

O que sabemos, ainda, é que Tales afirmou que a Terra é um disco achatado que está a boiar na água. Podemos destacar os seguintes pontos:

  • Tales preocupa-se com a forma da Terra;
  • A Terra tem um suporte, o que lembra as raízes que prendem a Terra ao fundo, que podemos ver nas cosmogonias;
  • Quando a água, suporte da Terra, entra em agitação a Terra estremece – é o terramoto.

O que podemos descortinar é que Tales se interessa com a forma da Terra e pretende dar uma explicação de fenómenos que são importantes para a Humanidade.

Outra tese de Tales diz que tudo está cheio de deuses. É uma afirmação um pouco misteriosa para nós.

Sabemos que Tales fez pequenas experiências com o âmbar e o imane; viu assim que havia corpos que atraíam outros corpos (é possível que estas experiências sejam anteriores ao filósofo).

É provável que com estes dados Tales chegasse à seguinte conclusão: há forças nos objectos e essas forças são deuses. Se assim é podemos concluir o seguinte:

  • Os deuses estão à nossa volta, ou seja, estão em todo o lado;
  • Esta concepção insere-se no quadro do politeísmo grego mas há inovação na medida em que os deuses estão mais próximos do Homem.

Tales ficou famoso por outras actividades. Interessou-se pela matemática mas não se conhecem os seus progressos.

Faz a previsão de um eclipse em 585 mas hoje pensa-se que Tales podia prever a data mas não o lugar onde ele era visível. É muito provável que Tales tivesse tido acesso às tábuas astronómicas dos babilónios, o que demonstra a sua grande curiosidade.

Terminamos com a interessante explicação das cheias do Nilo. Tales afirmou que os ventos etésios, em determinada altura do ano, sopram em direcção à embocadura do Nilo dificultando a entrada das águas do rio no Mediterrâneo: sendo assim o rio transbordaria para as suas margens, provocando as inundações.

Hoje sabemos que a explicação de Tales não é exacta; o que é exacto é o espírito da explicação dada pelo filósofo.



1.2. Anaximandro

Anaximandro, natural de Mileto, ficou famoso na Antiguidade por ter desenhado um mapa. Foi um companheiro de Tales, mais jovem do que este.

Anaximandro escreveu um livro, em prosa e cujo título é Acerca da Natureza. Tudo isto merece algumas considerações.

O título não é de completa confiança: é possível que o título original se perdesse e mais tarde se atribuísse esta designação genérica às obras dos pré-socráticos. Mas é interessante notar-se que, mesmo que o título seja posterior, ele corresponde ao domínio tratado pelo filósofo.

É relevante o facto de Anaximandro ter escrito um livro em prosa.

Em primeiro lugar o pensamento de Anaximandro torna-se público, isto é, pode ser abordado por quem tenha curiosidade para tal. É uma atitude que acompanha, quase sempre, a Filosofia.

Em segundo o facto de o livro ser em prosa mostra uma audácia da parte de Anaximandro. O universo cultural é dominado pela poesia no tempo do filósofo.

Escrever em prosa era abandonar os padrões mais elevados e, em contrapartida, Anaximandro conferia à prosa a dignidade de poder constituir o veículo do saber.

Vejamos agora a doutrina de Anaximandro.

O filósofo debruçou-se sobre o mesmo problema do seu antecessor: o que é a physis? E Anaximandro dá a resposta: a substância primordial é o apeiron.

O termo apeiron aparece na linguagem vulgar grega: nela significa algo sem limites, inacabado e por isso não é perfeito ou belo. Porém, para Anaximandro o termo embora conserve o sentido de qualquer coisa sem limites tem uma dignidade que não possui na linguagem vulgar.

A substância primordial para Anaximandro é algo sem limites e indeterminada. Esta última característica é fundamental para se compreender o que é o apeiron. Este não é uma substância determinada como a água, por exemplo, mas também não é uma mistura de substâncias. Se fosse uma substância determinada destruiria todas as outras, na medida em que a physis é infinita.

É importante assinalar que a substância primordial é incriada e imperecível: temos aqui patente a importância e a dignidade do apeiron que existe desde sempre e existirá para sempre.

Indiquemos igualmente a identificação da Divindade com a substância primordial; a este respeito façamos as seguintes observações:

  • as características do apeiron são tão importantes que são dignas para aplicar à Divindade;
  • se a Divindade é a substância primordial não é antropomórfica o que mostra a inovação introduzida por Anaximandro.

O filósofo está interessado na génese do Universo e sobre este tema temos alguma documentação, embora escassa.

Para Anaximandro, em determinada altura, separou-se do apeiron uma massa capaz de produzir o quente e o frio; em seguida a parte fria ocupa o centro e a quente vai envolvê-la.

Ora, é esta situação que vai provocando a secagem, progressiva, da parte fria e a evaporação vai ter como resultado a fragmentação da esfera de fogo.

A arquitectura do universo de Anaximandro é a seguinte:

  • a Terra tem uma forma cilíndrica;
  • a Terra está imóvel, no centro, sem necessitar de qualquer suporte porque está equidistante de todos os outros pontos;
  • os astros são constituídos por rodas ou anéis (das estrelas, da Lua e do Sol) cheias de fogo, envoltas por uma película opaca e com aberturas pelas quais sai a luz.

A maior ou menor obstrução dos orifícios explica os eclipses e as fases da Lua. Esta explicação é relevante pois mostra que Anaximandro dá resposta a fenómenos particulares inserindo-os numa teoria geral.

No que diz respeito ao tema das origens façamos, ainda referência à dos seres vivos. Segundo Anaximandro os seres vivos nasceram da lama e nos primeiros tempos, devido à escassez de terra firme, eram peixes ou semelhantes aos peixes.

O homem foi idêntico aos outros seres e em determinada altura veio para terra firme e perdeu a sua carapaça espinhosa. Podemos fazer as seguintes observações:

  • os seres vivos não tiveram sempre o mesmo aspecto, atravessaram uma certa evolução;
  • há uma adequação entre os seres vivos e o ambiente.

Deixemos para o fim o fragmento de Anaximandro, as primeiras palavras de um filósofo que chegaram até nós. Vamos transcrevê-lo no contexto do comentador (Simplício) que o conservou:


"O ilimitado é a origem dos seres. E a fonte da geração das coisas existentes é aquela na qual a destruição também acontece [segundo a necessidade porquanto pagam castigo e retribuição uns aos outros, pela sua injustiça, de acordo com o decreto do tempo] como ele se exprime, nestes termos um tanto poéticos." (Trad. M. H. Rocha Pereira).


As palavras de Anaximandro estão entre parênteses rectos.

Numa primeira leitura e seguindo a letra do fragmento podemos concluir que se trata de um quadro ético-jurídico: termos tais como castigo, injustiça, decreto do tempo parecem indiciar esta interpretação.

Todavia, podemos perguntar se fará sentido que coisas inanimadas, por exemplo, cometam qualquer injustiça e por isso tenham de ser castigadas. É provável que Anaximandro utilizasse termos poéticos, como diz Simplício, para descrever um determinado quadro. O filósofo poderia querer dizer que a noite para surgir necessitava que o dia desaparecesse assim como a uma estação sucedia outra.

O que queremos afirmar é que as coisas actuais não permitem o aparecimento de outras e é necessário que essas desapareçam para que outras venham à existência. E é também muito possível que este universo, segundo Anaximandro, um dia seja destruído para outro se formar.

Assinalemos, por fim, que para o milésio o universo é regido por normas (os decretos do tempo); é um universo regido pela necessidade e não pelo acaso.



1.3. Anaximenes

O terceiro milésio, Anaximenes, escreveu um livro em prosa, Acerca da Natureza, num estilo simples, segundo testemunho que chegou até nós.

O tema principal para este pensador é o mesmo dos seus antecessores: a physis. A substância primordial é a bruma para Anaximenes.

O que se pode perguntar agora é o seguinte: conhecendo Anaximenes as críticas do seu antecessor às substâncias determinadas porque é que o terceiro milésio escolheu a bruma? É aqui que entra uma explicação francamente engenhosa.

Segundo Anaximenes a substância primordial transforma-se nas várias substâncias que vão formar as coisas através do processo de rarefacção e de condensação. Assim, por exemplo, a bruma rarefazendo-se ao máximo transforma-se em fogo e na condensação máxima dá origem as pedras.

Estamos perante uma resposta subtil a um problema difícil, ou seja, a passagem da substância primordial (neste caso determinada) às outras substâncias.

Anotemos, ainda, que a bruma para Anaximenes é infinita e é a divindade suprema. São dois aspectos que vêm de Anaximandro; acentuemos que a noção de infinito pertence ao património filosófico milésio.

Segundo Anaximenes o universo deve a sua génese ao processo de rarefacção e condensação. Assim, surgiu a Terra, achatada, assente na bruma, e os astros que circulam em redor da Terra são corpos ígneos.

O fragmento que chegou até nós, atribuído a Anaximenes não merece grande confiança devido às interpolações que sofreu.

Diremos apenas que há uma analogia entre a alma humana, que é bruma, e a bruma que cerca (sustenta) o mundo. Não é para espantar que a alma seja constituída por bruma (possivelmente no seu estado puro) já que esta está presente em todas as coisas. A alma dá o movimento ao corpo humano e a bruma sustenta o universo.



PITÁGORAS E OS PITAGÓRICOS


  • Pitágoras de Samos

Com Pitágoras de Samos a filosofia muda de quadrante geográfico. Este emigrante instala-se em Crotona, na Grande Grécia, onde funda uma escola.

A escola pitagórica é a primeira a ser fundada na Grécia. Vários testemunhos indicam que se tratava de uma escola relativamente fechada.

A índole da escola pitagórica é religiosa e de investigação. A purificação da alma e o seu destino são preocupações fundamentais mas a sua contribuição filosófica é relevante e os pitagóricos ficarão célebres pelos seus estudos de matemática.

A escola desenvolve-se, nestas vertentes mas há dois aspectos que ainda devemos mencionar:

  • Pitágoras, não obstante ter sido uma figura histórica, aparece, cedo, rodeado pelo maravilhoso.
  • Este pensador aparece com traços xamanísticos o que mostra claramente a presença do antigo corpo de saber no campo filosófico;
  • há uma ligação entre o pitagorismo e os mistérios órficos. Durante bastante tempo afirmou-se que o orfismo influenciou o pitagorismo mas hoje coloca-se a hipótese de ter sido o pitagorismo a influenciar o orfismo.

A escola pitagórica chegou a dominar, sob o ponto de vista político, a cidade de Crotona. Em determinada altura a facção democrática da Cidade revoltou-se e massacrou os pitagóricos.

Foram poucos os que escaparam; Pitágoras foi um deles e refugiou-se em Metaponto, onde veio a falecer.

Conhecer o que pertenceu a Pitágoras e às várias gerações dos seus discípulos é tarefa muito difícil.

Essencialmente duas razões concorrem para tal facto:

  • por uma questão de respeito os pitagóricos atribuíram teorias posteriores ao próprio fundador;
  • uma literatura abundante sobre a Escola é muito posterior a Pitágoras e aos seus primeiros discípulos.

A Pitágoras poder-se-á atribuir três teses que estão ligadas entre si: (a) imortalidade da alma, (b) transmigração da alma e (c) o parentesco dos seres vivos.

A afirmação da imortalidade da alma é importante. A tradição religiosa não tinha sido muito clara quanto a este ponto: a alma sobrevivia à morte do corpo mas não se podia garantir a sua imortalidade.

A transmigração das almas constitui uma inovação a salientar. Para Pitágoras se a alma não fosse pura durante a vida terrena, após a morte do corpo, ela teria de reencarnar noutros corpos ou humanos ou de outros animais, até atingir a purificação.

Compreende-se agora o sentido da terceira tese de Pitágoras. Se a alma humana pode estar presente nos corpos de vários animais isso faz com que eles sejam parentes do homem.

E assim não é para espantar a proibição de matar e consumir a carne dos animais.

*

Como já dissemos, é difícil discernir o que pertence às várias gerações dos pitagóricos. A partir de agora, a nossa exposição abarca um período que vai, praticamente, até aos finais do século V.

Os pitagóricos defendem a existência de dois princípios ou substâncias opostas o limite e o ilimitado a partir dos quais o universo virá à existência.

O limite desenvolveu-se como uma semente que se desenvolve e, ao crescer foi penetrado pelo ilimitado o qual estava no seu exterior e que o fragmentou em corpúsculos.

O universo é constituído por um fogo central (que ilumina o Sol e a Lua) e por nove astros visíveis aos quais os pitagóricos juntaram a anti-terra (astro invisível) para perfazer o número dez que para eles era o número perfeito.

É possível que esta cosmologia remonte ao tempo de Filolau. Aspecto curioso é a chamada harmonia das esferas que consistia na música provocada pelo movimento dos astros. A base desta teoria era a seguinte: se um corpo é lançado provoca um ruído e se não ouvimos a música dos astros é porque estamos, desde crianças, habituados a ela.

*

Outras teorias pitagóricas ficaram famosas. Vejamos em primeiro lugar o sentido da expressão "as coisas são números". Muito rapidamente, diremos que ainda não estamos na matematização do universo. É mais provável que os pitagóricos quisessem dizer que as coisas são constituídas por corpúsculos.

*

A tábua dos opostos é ainda hoje tema de discussão. Vejamos primeiro os seus elementos:


LIMITEILIMITADO
ImparPar
UnoMúltiplo
DireitoEsquerdo
MachoFêmea
ImóvelMóvel
RectoCurvo
LuzTrevas
BomMau
QuadradoRectangular


Façamos algumas considerações. Em primeiro lugar trata-se de uma tábua com dez pares de opostos e em segundo o primeiro par é constituído pelos dois princípios ou substâncias fundamentais para os pitagóricos (Limite e Ilimitado).

Qual o sentido desta tábua? Esta é a questão mais difícil. Em cada coluna o termo fundamental é o primeiro sendo os nove restantes variações do primeiro. A coluna do Limite é positiva, a do Ilimitado, negativa.

É muito possível que os pitagóricos pretendessem descrever a realidade e mostrar os seus diferentes aspectos que, todavia, serão modalidades do primeiro par de opostos.

*

Como já dissemos o tema da alma ocupou um lugar de destaque nas preocupações dos pitagóricos. Não é para admirar que se debruçassem sobre a natureza da alma. Uma teoria considerava que a alma era um conjunto de partículas; possivelmente é a primeira concepção defendida pela Escola.

Vamos encontrar outra teoria, mais elaborada, a qual deve ser posterior. A alma surge como o princípio da harmonia do corpo.

A força e o prestígio da Escola pitagórica ultrapassou o século V devido às suas concepções filosóficas. A matemática, da qual foram grandes cultores trouxe-lhes, todavia, grandes problemas atestados na polémica entre eleatas e pitagóricos.



  • Xenófanes de Cólofon

Pitágoras de Samos e Xenófanes de Cólofon foram dois emigrantes que transportaram a filosofia da Ásia Menor para a Grande Grécia.

Xenófanes compôs poesias satíricas, os siloi, os quais contêm o seu pensamento filosófico. Isto mostra que os filósofos, sob o ponto de vista formal, tanto empregam a prosa como a poesia.

Xenófanes ficou famoso pelas críticas à religião tradicional e pela sua concepção de Divindade.

O filósofo atacou duramente os grandes poetas da Grécia, Homero e Hesíodo, como responsáveis pela imagem degradada dos deuses: ladrões, adúlteros e mentirosos (cfr. frag. B11).

O antropomorfismo dos deuses já criticado no frag. B11 é reforçado em B14 (roupagem e corpo, por exemplo, idênticos aos homens).

Os frags. B16 e B15 ampliam e inovam em relação aos frags. citados anteriormente.

O frag. B 16 chama a atenção para o facto de os Etíopes e os Trácios fazerem os deuses à sua imagem.

O que é importante anotar é que para Xenófanes os deuses antropomórficos não são universais. Teremos, ainda de falar, um pouco mais à frente, da noção de universal.

Vamos, agora, transcrever o frag. B15:


"Mas se os bois [os cavalo] ou os leões tivessem mãos ou pudessem pintar ou esculpir como os homens,
os cavalos desenhariam imagens equinas dos deuses,
e os bois, bovinas,
e pintariam a forma e o corpo dos deuses como
eles o têm
de modo que cada [espécie] teria o seu aspecto físico."

(trad. M. H. Rocha Pereira)


Este fragmento é para nós importante por duas razões:

  • é a nova crítica, através do ridículo, ao antropomorfismo;
  • mostra uma preocupação metodológica, na medida em que estamos perante uma argumentação por absurdo.

A filosofia, não obstante a sua pequena tradição, travava, com Xenófanes, uma das suas grandes batalhas: a apresentação de uma nova paideia, que se contrapunha à tradicional, cujos pilares eram Homero e Hesiodo.

Xenófanes não ficou pela crítica ao antropomorfismo: apresentou, também, a sua concepção de divindade.

Assim, fala de um deus com o máximo poder e que não possui traços antropomórficos (frag. B23). Este deus está imóvel e não necessita de fazer qualquer esforço para dominar todas as coisas (frag. B 26+25). O último aspecto é reforçado pelo frag. B24: vê tudo, ouve tudo, pensa tudo.

Encontramos aqui uma preocupação pela teologia natural (aspecto da filosofia pré-socrática posto em relevo por W. Jaeger) que já estava presente em Tales de Mileto.

Façamos ainda duas observações:

  • o deus de Xenófanes tem um carácter universal, isto é, pode ser encarado sob o mesmo aspecto por quaisquer homens (pertençam ou não a sociedades diferentes).
  • há uma questão ainda em aberto acerca da possível posição monoteísta de Xenófanes, embora, eu pense que o filósofo se mova, ainda, num quadro politeísta.

*

O tema do conhecimento é extremamente importante para Xenófanes. Para ele o homem não pode atingir a verdade, só tem acesso à opinião. E com grande subtileza afirma que se alguém dissesse a verdade não saberia que a tinha dito: o filósofo, defenderia, possivelmente, que tal sucedia porque não existe um critério da verdade (para estes aspectos veja-se o frag. B34).

No frag. B18 Xenófanes afirma que os deuses não deram a conhecer todas as coisas nos primeiros tempos da Humanidade; o homem ao longo dos tempos através da indagação descobre o que é melhor.

A teoria do conhecimento de Xenófanes apresenta uma série de aspectos que deveremos por em relevo:

  • o filósofo coloca a dicotomia verdade-opinião considerando que o homem só alcança a última. È um ponto importante porque abre um debate na filosofia grega que terá de levar em linha de conta este problema;
  • Xenófanes defende o progresso da Humanidade opondo-se assim ao mito da Idade de Ouro, o qual afirmava que a primeira sociedade tinha vivido numa autêntica beatitude. Em contrapartida o filósofo considera que o esforço consegue obter o progresso. Isto significa que o homem não está em regressão mas sim em marcha para aquilo que é melhor. Trata-se de outro tema que será debatido por filósofos posteriores.

O que disse, segundo espero, mostra a grande envergadura de Xenófanes, o qual não ignorou a cosmologia, tema que não tratei nestas linhas.

Nota Adicional

No capítulo dedicado a Xenófanes surge uma numeração atribuída aos fragmentos do filósofo. Esta numeração foi estabelecida por Diels na sua grande obra onde compilou as passagens referentes aos pré-socráticos, obra esta revista por Kranz.

Os fragmentos atribuídos aos filósofos podem ser apresentados da seguinte maneira:

  • pela simples numeração, por exemplo, Xenófanes, frag. 34;
  • pela numeração e secção, por exemplo, Xenófanes, frag. B34;
  • pela numeração e iniciais de Diels – Kranz, por exemplo, Xenófanes, frag. 34 D-K.

Creio que o mais simples é numerar os fragmentos ou indicar também a secção. Parte-se do princípio de que a numeração é a estabelecida por Diels – Kranz.

Segundo a obra de Diels-Kranz são apresentadas três secções: A- passagens relativas ao filósofo; B- fragmentos da sua obra; C- passagens duvidosas.

A numeração que utilizamos (Diels-Kranz) permite ao leitor, com facilidade, verificar os fragmentos assim como as traduções das quais são passíveis.



  • Heraclito de Éfeso

Com Heraclito e Parménides a filosofia pré-socrática atinge o seu auge. Ambos os pensadores têm a sua actividade em pleno século V e a sua influência vai ser nítida.

Heraclito, autor de um Acerca da Natureza, volta à prosa mas esta é oracular, próxima dos apotegmas, o que torna a filosofia heracliteana de difícil compreensão.

Quanto à posição de Heraclito gostaríamos de focar três pontos preliminares:

  • há um ataque aos grandes poetas e a alguns pensadores (Pitágoras e Xenófanes). Se a crítica a Homero e a Hesíodo não surpreende porque já tinha sido feita por Xenófanes o ataque a filósofos merece uma rápida consideração. A filosofia já tem os contornos do que vai ser a sua natureza: é uma reflexão independente, os seus cultores são solitários em embates com os seus colegas, nunca formando propriamente uma comunidade;
  • o interesse e a defesa por uma religião depurada é patente em Heraclito (cfr. frag. B5). O filósofo inscreve-se numa linha do pensamento grego cuja preocupação é a moralidade, portanto a dignidade da religião;
  • tema caro a Heraclito é a diferença entre o homem e os deuses. O filósofo reata aqui um tema contido no antigo corpo de saber. Para Heraclito há um abismo entre a sabedoria do deus e a do homem: é a concepção do saber humano como algo que pouco vale. É, no fundo, a consciência de que a razão tem limites estreitos e que para além dela se abre a imensidão do desconhecido.

A filosofia de Heraclito já era difícil de interpretar na Antiguidade quando o seu livro ainda estava completo; os fragmentos que chegaram até nós tornam a tarefa mais árdua. O nosso ponto de partida vai ser a noção de Logos (frags. B 1,B2 e B50).

É conhecida a dificuldade em traduzir a palavra grega logos. Por isso vamos tentar apresentar os traços mais relevantes desta noção em Heraclito:

  • o homem vulgar desconhece o Logos; existe, assim, uma clivagem entre os homens comuns e o filósofo;
  • todas as coisas acontecem segundo o Logos: este orienta e dirige tudo quanto existe;

  • o Logos é algo de comum
  • ;
  • por um lado o Logos é o que é comum a todas as coisas, por outro todas as coisas formam uma unidade;
  • o Logos não é a palavra do filósofo mas algo que lhe é independente e exterior.

Segundo penso para Heraclito o Logos é a estrutura das coisas existentes e o que permite explicitá-las, fazendo, igualmente a sua unidade.

É minha opinião que o Logos se identifica com a Divindade e o Fogo, outras duas noções fundamentais no pensamento heracliteano.

A Divindade é o uno, a sabedoria única (cfr. frag. B32); ora, a ênfase posta na unidade liga-se, ao que nos parece, ao Logos que, como vimos, é algo de comum.

Quanto ao Fogo aparece como algo de eterno, que se acende e se extingue com medida, sendo ele que constitui a ordem do mundo (cfr. frag. B30).

Como podemos ver este Fogo tem uma norma interna, é inteligente, passe a expressão, o que permite, segundo penso, identificar Logos, Divindade e Fogo.

O que há de inovador nesta perspectiva?

A substância primordial dos milésios torna-se mais complexa em Heraclito; neste pensador o Fogo surge com a função tradicional da physis e a sua identificação com a Divindade não é nova.

A novidade constitui no facto de Heraclito analisar mais profundamente esta noção, mostrando que ela possui várias facetas o que a torna mais complexa, como já dissemos.

Até este momento acentuei a tónica da unidade numa filosofia mais conhecida pela noção de fluir constante.

Heraclito ficou célebre pela luta dos contrários, pela mudança que se vai operando, sem cessar.

Ora, ao que me parece, o chamado fluir constante não se opõe à concepção de unidade que apresentei anteriormente.

O que quero dizer é que esta luta de contrários, este fluir, é superficial, ou seja, o substrato das coisas não é afectada.

Heraclito conjuga a unidade com o movimento: o que é importante é verificar que o essencial é a unidade, a qual não é posta em causa.

Embora Heraclito seja mais conhecido pelo filósofo do Logos ou do fluir constante todas as suas reflexões se fazem no âmbito da cosmologia. Ao que me parece é a origem e a estrutura do Universo assim como a forma de que se reveste que constitui a base da sua filosofia (embora no campo estritamente cosmológico Heraclito não seja muito original).

Por fim façamos uma referência ao tema da alma. O Efésio considera que a alma é fogo, devendo estar ligada ao Fogo universal. As almas, e isso deve ser o mais comum, podem transformar-se em água, o que constitui a sua morte. Por seu lado as almas virtuosas (porque são secas) sobrevivem à morte do corpo (veja-se os frags. B25, B36, B118).

O facto de Heraclito se ter debruçado sobre a questão da alma mostra-nos o seguinte:

  • é um tema importante a partir de Pitágoras;
  • Heraclito ao defender que nem todas as almas são imortais mostra claramente as divergências e a ambiguidade deste tema desde os poemas homéricos.

A exposição que fizemos teve de deixar de lado alguns aspectos da filosofia de Heraclito em que ele mostra toda a sua pujança e que nos ajuda a compreender a influência que vai ter ao longo da Filosofia Grega.



  • Parménides de Eleia

Nota Introdutória

Na exposição do pensamento de Parménides de Eleia seguimos a tradução de M. H. Rocha Pereira (Hélade). Tal significa que as passagens traduzidas do Poema de Parménides se devem à Autora citada.

Aproveito esta Nota para chamar a atenção do leitor para a diversidade de traduções do texto de Parménides. A dificuldade de uma tradução, relativamente consensual, pode levar-nos a interpretações diversificadas da doutrina do Eleata.

*

Com Parménides voltamos de novo ao quadrante ocidental da Hélade. O filósofo é natural da Eleia, situada nesse vasto espaço que é a Grande Grécia.

Na sua juventude foi discípulo de um pitagórico e perto da sua maturidade escreveu um poema que contém a sua doutrina filosófica.

O poema pode ser dividido em três partes: prelúdio, via da verdade e via da opinião. Façamos algumas considerações sobre a forma como se exprime Parménides:

  • a forma pela qual os pré-socráticos se exprimem é diferenciada: uns escrevem em prosa, outros em verso. O facto de Parménides escrever em verso mostra o prestígio de que gozava a poesia;
  • Parménides coloca as suas palavras na boca de uma deusa. A interpretação deste facto é difícil e controvertida.
  • Penso que o filósofo quis dar o máximo de dignidade à sua doutrina: assim, surge o discurso proferido pela deusa, para mostrar que a sua filosofia podia ser expressa por uma divindade. É um sentimento de grande religiosidade que anima uma parte dos pré-socráticos.

Vejamos, agora, alguns aspectos do Poema de Parménides.

O prelúdio tem um interesse que não é meramente formal. Ele apresenta uma viagem, a viagem espiritual de Parménides que tendo como guias as filhas do Sol passa por uma encruzilhada onde se encontram os portões do caminho da Noite e do Dia (frag. 1 v. 11). O final da viagem é a mansão da Divindade que em determinada altura lhe diz o seguinte:

"...Força é pois que saibas tudo:
O ânimo inabalável da rotunda Verdade
e a opinião dos mortais, em que não há
confiança verdadeira
No entanto aprenderás isso também, como
as aparências
deviam ser de um modo aceitável, tudo passando
através de todas as coisas."

(frag. B 1, vv. 28-32)


Tentemos aclarar alguns pontos:

  • a viagem descrita no prelúdio faz-nos lembrar as deambulações da alma de um xamane;
  • o prelúdio mostra claramente a ligação com o mais antigo corpo de saber;
  • na passagem transcrita podemos ver que o filósofo deve possuir não só o conhecimento da verdade mas também a opinião dos mortais. Teremos de ver mais tarde porque é que Parménides não se pode contentar só com o conhecimento da verdade;
  • os vv. 28-32 do frag. B1 constituem, na nossa opinião uma das chaves para a interpretação global do Poema, como tentaremos mostrar.

Ainda no prelúdio são indicadas as duas vias que vão ser objecto dos dois discursos da Deusa. Uma via afirma a existência de o que é e a não existência de o que não é (cfr. frag. B2).

Podemos, desde já, fazer duas observações:

  • os termos o que é e o que não é podem ser traduzidos, respectivamente, por ser e não-ser. São estas duas traduções que vamos utilizar;
  • Parménides, pela boca da Deusa, irá afirmar que a primeira via é a verdadeira e a segunda deverá ser afastada porque o não-ser não pode ser conhecido nem declarado.

A via da verdade ocupa o frag. B4 ao v.49 do frag. B8. O frag. B6 coloca um problema de interpretação, ainda hoje, largamente controvertido. Depois de ter falado dos dois caminhos Parménides pretende afastar o seu leitor


"...daquele também, no qual vagueiam os mortais que nada sabem, homens de duas faces. Pois a incapacidade lhes dirige no peito a mente errante. E eles são levados, surdos e cegos a um tempo, estupefactos, multidão sem discernimento que julgam que ser e não ser ora valem o mesmo, ora não valem..." (frag. B6, vv. 4-9).


Tem-se pretendido ver nestes versos um terceiro caminho sendo Heraclito o alvo do filósofo de Eleia.

Todavia as expressões homens de duas faces, surdos e cegos, multidão não parecem dirigir-se a um filósofo, relativamente solitário, como Heraclito. É mais provável que seja uma escola ou circulo o alvo de Parménides. A expressão homens de duas faces pode aplicar-se aos pitagóricos defensores do par Limite-Ilimitado.

O poema de Parménides marca a ruptura com a escola pitagórica à qual tinha pertencido. Segundo pensamos o Eleata desejaria mostrar a distância que agora o separa da sua antiga escola.

Uma última consideração sobre os versos transcritos. Segundo penso não há uma terceira via mas sim uma variante da via da opinião. A digressão de Parménides teria como objectivo por em relevo aqueles que seriam os seus grandes adversários.

O frag. B8 (vv.1-49) vai indicar as características do ser.

Em primeiro lugar o ser é incriado e imperecível porque "é completo, inabalável e sem fim" (frag. B8, v.4). Desta forma os termos geração e destruição não têm qualquer sentido (frag. B8, v. 21).

O ser é também homogéneo, contínuo e imóvel (frag. B8, vv. 22-28). E como nada falta ao ser, isto é, ele é completo segundo Parménides, tem de ser finito (frag. B8, v.32).

Não nos é possível dar uma ideia da argumentação cerrada de Parménides nem do seu espirito que me parece dogmático. Porém, algumas considerações são indispensáveis:

  • a argumentação de Parménides a favor da existência do ser e da não existência do não-ser é brilhante. O não-ser não tem razão para existir. Se o não-ser existisse no princípio, seria contraditório que dele nascesse o ser; é contraditório porque admite que o ser vem do não-ser seria considerar que o não-ser possuía o ser. Da mesma forma o ser não pode perecer porque então o não-ser viria à existência o que é um absurdo porque tinha de se admitir que o ser possuía o não-ser;
  • ao considerar erróneos os termos geração e destruição Parménides vai considerar o movimento como ilusório; o chamado mundo sensível não têm sentido e não tem realidade;
  • convirá levar em linha de conta a continuidade do ser. Este aspecto vai contra a descontinuidade defendida pelos pitagóricos. Veremos mais tarde as consequências desta oposição;
  • por seu lado a finitude está em oposição à infinitude defendida pelos milésios. Sob o ponto de vista etimológico infinito, em grego, significava também imperfeição porque era algo de não acabado. Ora, Parménides ao considerar o ser como completo, isto é, como perfeito, concebeu-o, portanto, como finito.

Vejamos, agora, uma das passagens mais controvertidas do Poema:

"O que pode ser pensado e o pensar são o mesmo" (frag. 8, v.34)


Frequentes vezes esta passagem tem sido interpretada como a identificação do ser com o pensar. Mas segundo penso não é a melhor interpretação.

O que está aqui em causa é a natureza do pensar. Possivelmente Parménides considerava que o pensar não é algo que se defina com facilidade.

O pensar tem um determinado objecto que é o ser. Ou seja, se o real é o ser e se não existe mais nada para além dele só poderá chamar-se pensamento o acto que incide sobre o ser. Em contrapartida, em nossa opinião, quando não há a incidência sobre o ser, rigorosamente não há o pensar.

O discurso sobre a opinião vai desde o frag. B8, v.50 ao frag. B19.

É com estas palavras que se vai iniciar o discurso da deusa sobre o caminho da opinião:


"Com isto cesso o meu discurso digno de fé e o meu
pensar]
acerca da verdade. Sobre a humana opinião aprende,
a partir de agora, escutando a ordem ilusória das
minhas palavras.]" (frag. B8, vv. 50-52)


Esta passagem vai auxiliar-nos a compreender o sentido geral do Poema de Parménides. Neste momento o que nos vai interessar é a ordem ilusória que a deusa seguirá na última parte do Poema, parte esta que nos chegou muito fragmentada.

O que vamos encontrar no caminho da opinião é uma cosmologia de tipo tradicional. Os dois princípios (as substâncias primordiais) que vão dar origem às coisas são a luz e a escuridão (cfr. frag. B8, vv. 55-59). As coisas têm um nascimento e uma morte (frag. B19) e sabemos, igualmente, que a Terra está presa através de raízes aquáticas (frag. B15a).

Vamos transcrever, para uma breve análise, um frag. da última parte do Poema:


"Assim, segundo a aparência, as coisas se criaram e
ora existem,]
e depois disto crescerão e chegarão ao seu termo.
A cada uma delas os homens puseram um nome distintivo" (frag. B19).


Embora esta passagem pertença ao caminho da opinião ela é extremamente importante pois tem por objectivo a natureza da linguagem.

O frag. B19 mostra como nos inícios do séc. V o problema da linguagem já se punha, problema este de grande relevo a partir da segunda metade do mesmo século.

Para Parménides, segundo a via da opinião, os nomes correspondem às coisas, isto é, distinguem-se pelas diferentes denominações. A natureza da linguagem é permitir a compreensão das coisas por nomes distintos.

A compreensão global da filosofia parmenidiana é difícil e estamos muito longe de um consenso. O grande problema reside na articulação entre o caminho da verdade e o da opinião.

Segundo nos parece para Parménides os dois caminhos são incompatíveis: os frags. B1, vv. 28-32 e B8, vv. 50-52, que já citámos, apontam nessa direcção. Mas, se assim é qual a função do discurso da opinião?

Penso que a última parte do Poema é um exercício, um jogo, realizado por Parménides.

O filósofo quereria mostrar que a opinião pode dar azo a discursos enganosos, que podem passar por verdadeiros. Assim, por vezes, a opinião é difícil de refutar porque dá a sensação de verdadeira.

A posição de Parménides é importante na História da Filosofia. É inovador em relação aos seus antecessores e levanta uma série de problemas relevantes: a questão do ser, a desvalorização do mundo sensível, a ilusão do movimento.

Como veremos, ou defendendo-o ou atacando-o os filósofos posteriores não o poderão ignorar.



  • Empédocles de Agrigento

Com Empédocles de Agrigento a filosofia instala-se plenamente na primeira metade do séc. V.

Empédocles escreveu dois poemas, Acerca da Natureza e Purificação dos quais uma parte importante chegou até aos nossos dias.

*

Na base da sua doutrina encontramos as raízes do ser e um duplo movimento, o Amor e a Discórdia.

As raízes do ser são quatro: o fogo, a água, a terra e o ar. Anotemos, desde já, que Empédocles procede como se fragmentasse o ser de Parménides em quatro partes.

As raízes têm características que fazem lembrar o ser parmenideano: são incriadas, imperecíveis, sempre idênticas a si próprias e de igual dignidade (importância).

Por sua vez o Amor e a Discórdia têm como função, respectivamente, agregar e desagregar as raízes.

O que é importante é que para Empédocles não há o nascimento e a morte das coisas: a realidade é a agregação e a desagregação o que constitui um eco da influência de Parménides (cfr. frag. B17).

Com Empédocles estamos no pluralismo mas conhecedor das posições de Parménides tenta algo de extremamente difícil: embora haja quatro raízes (substâncias primordiais), estas apresentam algumas características do ser de Parménides enquanto o movimento é salvo no seu sistema.

Há uma grande diferença, não obstante, entre Empédocles e Parménides. O Agrigentino considera que o mundo sensível não é uma ilusão como não é uma ilusão as mudanças que se vão operando à nossa volta. O que chamamos o nascimento e a morte são as agregações e as desagregações de raízes que ao provocar as modificações que podemos verificar mantêm-se idênticas a si próprias.

Empédocles apresentou uma cosmologia, cuja complexidade não poderemos mostrar nestas linhas.

Há um ciclo cósmico que pode ser dividido em quatro fases:

  • Na primeira fase encontramos uma esfera na qual todas as raízes estão misturadas. A esfera é uma divindade, portanto, não antropomórfica.
  • A segunda fase inicia-se com o avanço da Discórdia do extremo para o centro da esfera. Através de um processo complicado surgem a Terra e dois hemisférios que giram em sentido contrário em torno da Terra. O Sol e a Lua não têm luz própria recebendo-a do hemisfério de fogo (o outro hemisfério é constituído por ar e fogo). A segunda fase representa o Universo no qual vivemos, isto é, a Humanidade só pode existir neste momento cósmico.
  • Da terceira fase, da qual temos poucas informações, podemos dizer que a Discórdia tem o domínio absoluto e que o Amor foi afastado para as extremidades da esfera. Totalmente separadas, as raízes possivelmente, formam quatro rodas concêntricas (uma por cada raiz).
  • A quarta e última fase representa, por sua vez, o avanço do Amor em direcção ao centro, misturando as raízes e preparando novo ciclo cósmico.

*

Se Empédocles trata das origens do Universo, a sua atenção virou-se, igualmente, para os seres vivos: nestes, podemos verificar quatro fases na sua evolução.

Um conjunto de membros e órgãos dispersos, formando um quadro estranhíssimo, constitui a primeira fase.

A segunda mostra-nos essas diferentes partes unindo-se, sem qualquer critério, ao acaso, dando origem a uma longa galeria de monstros.

A terceira fase oferece já uma imagem mais suave: os seres animais apresentam, agora, o aspecto que hoje possuem mas como são assexuados não se podem reproduzir.

Na última os seres conservando o seu aspecto anterior já podem reproduzir-se.

Duas observações sobre este tema:

  • as quatro fases em que se divide a história dos seres animais devem processar-se na segunda fase do ciclo cósmico;
  • é de notar a audácia e a imaginação prodigiosa de Empédocles.

*

Para além do tema estritamente cosmológico Empédocles, sob influência pitagórica, debruçou-se sobre o tema da alma.

Nas Purificações o filósofo fala-nos de uma Idade de Ouro na qual existia a harmonia entre os homens e também entre estes e os animais. É a época em que havia uma única divindade adorada com oferendas simples como pinturas e aromas.

Uma falta cometida terminou com este estado lançando o homem na existência penosa onde se encontram existem o sofrimento, a velhice e a morte.

As almas humanas que nesta existência não são puras são obrigadas a transmigrar (influência claramente pitagórica) para expiação das suas faltas. Com clareza, podemos ver que, segundo Empédocles, as almas podem reencarnar em animais e plantas (frag. B127) e o próprio filósofo confessa que foi rapaz, rapariga, arbusto, ave e peixe (frag. B 117).

As Purificações mostram como sob a influência do orfismo e do pitagorismo a reflexão sobre a alma passava a constituir um tema fundamental. E neste campo Empédocles é um exemplo de como o antigo corpo do saber se cruzava com a inovação.

*

Vamos terminar fazendo referência a dois aspectos do pensamento de Empédocles: a teoria das sensações e uma experiência realizada pelo filósofo.

Pelo que sabemos foi Empédocles o primeiro a preocupar-se com o estudo das sensações. Para o Agrigentino as coisas existentes lançam eflúvios, os quais entram nos órgãos dos sentidos provocando, então, as sensações. Mas neste caso como têm lugar as diferentes sensações, isto é, como há várias? A resposta de Empédocles é subtil: os órgãos dos sentidos têm poros e consoante a espessura dos eflúvios, estes entram nos poros que têm o diâmetro adequado, obtendo-se assim as sensações diferenciadas.

A experiência de Empédocles, que ele descreve no frag. B 100, feito com uma clépsidra, explicava o mecanismo da respiração e provava que o ar é pesado.

Quanto à experiência relatada no frag. B 100 duas observações:

  • não obstante o interesse da experiência de Empédocles, ela não faz do filósofo um experimentalista, já que se trata de um acto isolado;
  • os pré-socráticos, no seu conjunto, não foram, de forma alguma, os percursores do método experimental.


  • Zenão de Eleia e Melisso de Samos

Agrupámos no mesmo capítulo dois pensadores porque ambos pertencem à escola de Eleia. São dois homens que atingem o seu apogeu pelos meados do século V.

A filosofia por essa época estava difundida por uma vasta área da Hélade e é interessante notar-se que um natural de Eleia e outro de Samos pertençam à mesma escola.


1. Zenão de Eleia

Zenão de Eleia, discípulo directo de Parménides, ocupa um lugar de destaque na História da Filosofia não por ser um construtor de sistemas mas sim pelo seu pendor polémico.

Com alguma tradição filosófica atrás de si o Eleata compreendeu que a filosofia não era só doutrina mas também método refutativo.

Diremos em primeiro lugar que Zenão apresentou uma série de argumentos contra o movimento e a pluralidade.

Em segundo é de assinalar um problema de interpretação: quais são os adversários do Eleata?

Zenão apresentou quatro argumentos contra o movimento, dos quais apresentaremos um.


A -----------------------C----C'---C''---------------------------B


Um corredor (C) parte da extremidade do estádio (A) para atingir a outra extremidade (B). Depois de atingir a metade do estádio tem de percorrer a metade restante (C') e assim sucessivamente sem nunca chegar ao final.

Façamos, agora, algumas observações:

  • à primeira vista estamos perante um espaço finito (segmento AB) e tudo levava a crer que o corredor precisava de um tempo igualmente finito;
  • se o corredor não chega ao ponto B é porque qualquer porção de espaço é constituído por um número infinito de pontos;
  • o que podemos concluir é que estamos perante uma determinada concepção de espaço: este, sendo constituído por um número infinito de pontos não pode ser percorrido num tempo finito, o que seria um absurdo.

Zenão pretende mostrar, com os seus quatro argumentos, que o movimento, pelo menos numa determinada concepção de espaço, é absurdo.

A argumentação contra a pluralidade por parte do Eleata é igualmente importante e merece um apontamento preliminar.

No tempo de Parménides e Zenão tinham surgido não só as concepções de movimento e infinito, que aliás eram anteriores à escola de Eleia, assim como a concepção do real como pluralismo a qual vai ter os seus máximos representantes no final do período pré-socrático.

Zenão vai criticar o pluralismo levando as suas consequências ao absurdo.


"Se a pluralidade existe, as coisas serão igualmente grandes e pequenas; tão grandes que serão infinitas em tamanho, tão pequenas que não terão qualquer tamanho" (frag. B1 - K. e R. - trad. port.).


Os frags. de Zenão têm permitido diversas interpretações. Avançaremos com a nossa interpretação que tentará resolver algumas dificuldades postas pelos frags. deste filósofo.

Na passagem transcrita, segundo pensamos, as coisas deverão ser entendidas como conjuntos de unidades, ou seja, de corpúsculos. Se os corpúsculos não têm dimensão nesse caso as coisas são igual a zero, isto é, serão inexistentes o que constitui um absurdo. Se os corpúsculos, que serão infinitos em cada coisa, têm dimensão, neste caso cada coisa será infinita. Ora, se existe um conjunto de coisas em que cada uma é infinita encontramos o absurdo ao contemplar um mundo cheio de infinitos. Ao que nos parece, o que dissemos é confirmado por outra passagem de Zenão:


"Se a pluralidade existe, as coisas que existem são infinitas; pois haverá sempre outras coisas entre as coisas que existem, e ainda outras entre essas outras. E assim as coisas que existem são infinitas" (frag. B3 - K. e R. trad. port.).


Uma questão que ainda, hoje, se discute é a de saber quais são os adversários de Zenão. Temos sempre considerado que o alvo são os pitagóricos. No dizer de Kirk e Raven estes confundiram os números, corpúsculos e pontos geométricos: tanto na concepção de linha, composta por um número infinito como de coisa a qual é um aglomerado de unidades. Isto quer dizer que o conceito de realidade visado por Zenão é o dos pitagóricos.



2. Melisso de Samos

Melisso, partidário de Parménides, não é um crítico como Zenão mas procura consolidar a teoria do ser apresentada pelo seu mestre.

As críticas dirigidas a Parménides levam Melisso a introduzir uma modificação na doutrina eleata: o ser passa a ser infinito. É provável que Melisso antes de abraçar o eleatismo estivesse ligado à doutrina milésia. Compreendia-se assim que ele não estivesse tão interessado na finitude como o estava Parménides.

Ao defender a infinitude Melisso desejava resguardar a teoria do ser contra as críticas que podiam colocar o vazio ou outros seres ao lado do ser. Ora, se o ser é infinito, é um plenum, não deixa lugar para mais nada.

Façamos, agora, para terminar uma referência ao frag. B8.. Em resumo, o filósofo diz que se o ser fosse fragmentado, ou seja, se houvesse uma pluralidade, era necessário que cada ser fosse como ele descreve o uno. Há aqui uma subtileza segundo a qual Melisso desejava mostrar a impossibilidade, o absurdo, do pluralismo.



  • Anaxágoras de Clazómenas

Anaxágoras ocupa um lugar de destaque na vida da cidade de Atenas. Contemporâneo de Péricles, pertenceu ao seu círculo e possivelmente foi seu conselheiro. Podemos dizer que com Anaxágoras a filosofia instala-se em Atenas.

Para este jónio da Ásia Menor o grande problema era a origem do Universo. E a base da sua explicação era a existência de uma mistura originária e a do Espírito.

Vejamos, em primeiro lugar, o que é a mistura originária.

No início todas as coisas estavam misturadas, era uma amálgama de elementos "e uma quantidade infinita de sementes que em nada se assemelhavam umas às outras" (frag. B4 - trad. M. H. R. Pereira).

Quanto ao Espírito vamos transcrever algumas passagens do frag. B12:


"o espírito é ilimitado e autónomo e não se mistura com coisa alguma, mas existe só, de per si (...) é a mais subtil e a mais pura de todas as coisas, e possui conhecimento completo de tudo e o maior poder. E o espírito tem poder sobre tudo o que tem vida, seja maior ou menor" (trad. M. H. R. Pereira).


O Espírito é a outra entidade que está presente no início do processo cosmológico. Anaxágoras não lhe chama divindade mas as características apontam para essa designação: ilimitado, autónomo e com o conhecimento e o poder sobre todas as coisas.

O universo, tem o seu início devido à acção do Espírito. É este que inicia o movimento de separação dos elementos amalgamados, movimento esse que cada vez será mais amplo.

Da mistura originária com a acção do Espírito passa-se à separação dos elementos, primeiro o ar e o éter depois a Terra forma-se do espesso, do frio e do escuro e o leve, o quente e o húmido formaram a parte exterior à Terra.

A Terra é plana, sustentada pelo ar e o Sol, a Lua, as estrelas são pedras ígneas levadas pelo movimento do éter.

Digamos, ainda, que para Anaxágoras o Sol é maior do que o Peloponeso e a Lua tem planícies. Influência dos milésios e audácia na concepção cosmológica marcam o pensamento de Anaxágoras.

Alguns aspectos da sua doutrina, a que nos vamos referir, mostram a envergadura filosófica de Anaxágoras.

Quando se passa da mistura originária para as coisas que constituem o Universo não há aumento nem diminuição da matéria (cfr. frag. B5). É um aspecto importante porque se trata de uma resposta à crítica de Zenão ao pluralismo. O que Anaxágoras quer dizer é que em qualquer momento do processo cosmológico a quantidade de matéria permanece rigorosamente a mesma.

Anaxágoras é um filósofo subtil e isso pode ver-se na concepção que ele tem das coisas. Qualquer coisa que consideremos tem uma porção de todas as coisas, ou seja, qualquer existente é um aglomerado de todas as substâncias. Vejamos alguns problemas que se colocam numa concepção deste tipo.

Como é que uma coisa difere de outra?

A esta pergunta, segundo pensamos, responderia Anaxágoras dizendo que uma coisa difere de outra pela predominância de um elemento: é o predomínio de um determinado elemento que introduz a diferença entre as coisas.

Até que ponto se pode dividir uma coisa?

Para o filósofo a divisão prosseguindo até ao infinito encontrará sempre uma porção, isto é, a divisão infinita não desemboca num zero. Mais ainda: a porção que se vai encontrando tem sempre algo de todas as coisas. É ainda a resposta a Zenão de Eleia.

Anaxágoras está atento aos eleatas e à medicina do seu tempo.

Em relação aos primeiros, Anaxágoras vai estar de acordo com a afirmação de que as coisas não nascem nem morrem: o que existe são agregações e desagregações. E como já dissemos, o filósofo esteve atento às críticas de Zenão contra o pluralismo.

A noção de que cada coisa tem uma porção de todas as outras deve ser inspirada na medicina grega. A medicina, contemporânea de Anaxágoras, interessava-se pela dietética e sobre este tema surgiram vários tratados.

Vejamos uma questão, para ilustrar este ponto: como é que um grão de trigo alimenta o cabelo, os ossos, as artérias?

A resposta a esta questão, na perspectiva de Anaxágoras é a seguinte: o grão de trigo tem porções de todas as coisas e é por isso que pode alimentar as várias partes do corpo humano. Ora, a ideia de um determinado alimento exercer influência sobre vários órgãos ou partes do corpo devia ter constituído a base para a teoria geral de Anaxágoras.

Para terminarmos esta abordagem façamos uma referência à posição de Anaxágoras sobre a superioridade do homem.

Esta reflexão do filósofo insere-se num interesse já manifestado nos inícios da filosofia. A origem dos seres vivos, a controvérsia entre a degradação e o progresso da Humanidade são temas tratados antes de Anaxágoras. Este filósofo, todavia, vai mais longe e procura saber o que faz a superioridade do homem: segundo ele, é a utilização das mãos que torna o homem superior aos outros animais.

A questão de saber como o homem evoluiu, quais as suas conquistas ao longo dos tempos, vai ser abordada por filósofos e literatas na segunda metade do século V.




OS ATOMISTAS

Os atomistas constituem a escola de Abdera cujo fundador é Leucipo de Mileto ou de Eleia. É difícil saber o que pertence a Leucipo e o que pertence ao seu discípulo Demócrito de Abdera. Com a escola de Abdera não só é ocupada a segunda metade do séc. V como as primeiras décadas do séc. IV o que faz com que Demócrito sobreviva a Sócrates e seja contemporâneo de Platão.

As bases da doutrina atomista são lançadas por Leucipo e podem resumir-se da seguinte maneira:

  • o real é constituído por átomos e vazio;
  • os átomos são o ser, o vazio o não-ser;
  • tanto o ser como o não ser têm uma existência plena.

Demócrito explicava a formação dos mundos e das coisas através dos átomos e do vazio. Ora, como isto é possível?

Para respondermos a esta questão temos de saber o que é o átomo para a escola de Abdera.

O átomo é uma partícula de tamanho variável, quase sempre invisível ao nosso olhar e indivisível. A sua forma é igualmente variável: redonda, côncava, pontiaguda, etc..

Demócrito estava de acordo com Parménides neste ponto: não há nascimento nem morte. O que existe, na sua perspectiva, são agregações e desagregações de átomos.

Os átomos estão animados de movimento; se o átomo é incriado e imperecível, o movimento é igualmente eterno.

Animados pelo movimento os átomos entram no vazio e por vezes chocam uns com os outros; se for grande o seu número pode haver um vórtice, origem de um mundo. O tamanho, a forma, a posição pela qual se colocam explicam o aspecto diferenciado das coisas.

Desde já podemos fazer algumas observações:

  • não existe uma divindade que esteja na origem dos mundos;
  • a diversidade das coisas não se deve a qualidades diferentes: estas não existem, o que existe, como diz Demócrito, é o vazio e os átomos.

Demócrito foi defensor, assim como Anaxágoras, de mundos inumeráveis. O filósofo tem uma intuição admirável: há mundos que têm vida e outros não, a alguns pode faltar este ou aquele astro. Há aqui uma antevisão aproximada daquilo a que nos diz a cosmologia contemporânea.

Já dissemos que Demócrito não reservou qualquer função aos deuses na génese dos mundos. Acrescentamos que o filósofo não negando a existência dos deuses vai considerá-los mortais retirando-lhes a sua principal prerrogativa.

Demócrito, o último grande pré-socrático, apresenta algumas características interessantes: é autor de dezenas de títulos e defensor de um cosmopolitismo expresso no frag. B249:


"O sábio pode andar por toda a Terra pois a pátria de uma alma boa é o mundo inteiro" (trad. M. H. R. P.).




Conclusão da Segunda Parte

A Segunda Parte destes Apontamentos foi dedicado aos pré-socráticos, terminando com Demócrito de Abdera. Nesta Parte não tratei dos sofistas (que, por vezes, são incluídos na filosofia pré-socrática) porque considero, que estes apresentam novas perspectivas (ver Terceira Parte).

Na minha opinião, os pré-socráticos são os primeiros filósofos e, assim, considero que a Filosofia não surgiu na segunda metade do século V, como alguns defendem.

Em parte, pelo menos, a designação pré-socrática é um atestado de menoridade. Segundo a interpretação mais corrente Sócrates introduziu no campo da Filosofia a reflexão fundamental. Assim, os pensadores, antes de Sócrates, não alcançaram o nível do mestre de Platão. Discutiremos este tema na Terceira Parte destes Apontamentos.

Todavia, acrescento, agora, um aspecto cronológico: alguns pré-socráticos são contemporâneos do próprio Sócrates e, por exemplo, Demócrito sobrevive vários anos ao filósofo ateniense.

Repetindo o que já disse, penso que a Filosofia nasce com Tales e consolida-se até aos meados do século V.

É certo que os pré-socráticos se preocuparam com a cosmologia. Mas esta continha a génese, evolução e arquitectura do Universo. Este é, em minha opinião um problema filosófico na Antiguidade.

A importância da temática cosmológica está bem atestada nos nossos dias.

A filosofia para os pré-socráticos constituía uma unidade e só a partir da segunda metade do século V surgem várias áreas dentro da filosofia.

Contribuições para as áreas que surgiram mais tarde foram fornecidas, todavia, pelos pré-socráticos, inseridas, como já disse, numa globalidade constituída pela preocupação cosmológica.

Reflexões sobre os deuses e os homens (recorde-se o tema da alma) foram extremamente importantes para o pensamento posterior.

Acrescentarei, ainda, o que aliás não foi muito frequente, as observações de alguns pré-socráticos sobre o tema do conhecimento.

Não é minha preocupação fazer um balanço, amplo, das contribuições dos pré-socráticos para a filosofia posterior.

A exposição que realizamos e que constitui, apenas, uma síntese, foi orientada no sentido de mostrar a importância dos primeiros filósofos.

A conclusão da Segunda Parte dos Apontamentos pretende reforçar, com algumas notas, o que pretendi defender: a filosofia nasce com Tales de Mileto e consolida-se com os seus sucessores, a que chamamos pré-socráticos. E neste linhas quis afirmar, novamente, que a filosofia não surge na segunda metade do século V.

Terminarei com mais algumas, breves, considerações:

  • É a preocupação cosmológica que vai continuar no século IV (veja-se o caso de Aristóteles);
  • É o pensamento de vários pré-socráticos que vai ser levado em linha de conta, a partir da segunda metade de século V;
  • É entre outras figuras, a presença de Heraclito e Parménides, no século IV, que é fundamental.

*

Nota adicional à Segunda Parte

Indicarei os autores e respectivas obras a que pertencem as traduções utilizadas:

  • M. Helena da Rocha Pereira, Héláde, Coimbra, 1982, 4.ª ed.
  • Kirk e Raven, Os filósofos pré-socráticos, Lisboa, 1979. Trad. Carlos Fonseca, Beatriz Barbosa e M. Adelaide Pegado.


©Álvaro dos Penedos

"Os Filósofos Pré-Socráticos" foi extraído de Os Dias de Deméter


Obs.: este texto também pode ser encontrado no site da A.F.A. - Associação Filosofia Antiga sob Conteúdos/ Iniciação à Filosofia Antiga ou directamente através deste link.

2 comentários:

Levi Malho disse...

Estimados Amigos:

A Filosofia, contrariamente a tantas outras coisas, começou por uma espéecie de "perfeição" que só raramente acontece na História da aventura humana.

Os pré-socráticos tinham e têm o encanto de todos os primeiros amores. Enormes, inocentes, sinceros, fatais!

Podemos andar toda a Vida a procurar reencontrá-los...

Estes "Apontamentos" lembram-me o início da descoberta da alegria sobre os Gregos, sobre "estes" Gregos em particular.
E também, não o esquecerei nunca, sobre quem me abriu estas portas que ainda hoje, tantos anos passados, atravesso com prazer e humildade!

Parabéns ao Autor, prof. Alvaro dos Penedos e à "AFA",

Levi Malho
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Thémis disse...

Havia( e felizmente, ainda há) professores contadores de histórias, cientes de que o seu palco e o seu público precisam de uma enorme empatia, de muita informação organizada e da raríssima capacidade de tornar claro, aquilo que não o é.
Surpreendem-nos muitas vezes pela sua timidez e quase humildade!
A paixão com que nos transmitem aquilo que os maravilha perdura nas memórias daqueles que se deixam desumbrar, ficando presos à palavra que revela, que fascina.
Tales, Pitágoras, Sócrates, Platão eram nomes, sem rosto, quase sem conteúdo, até às suas aulas. Obrigada, Professor Penedos!