sexta-feira, 17 de agosto de 2007

O “quê


Antes de mais, desmistifiquemos o título. Poderia sem dúvida interpretar-se como uma interrogação simples (“O quê?”). Ou mesmo como uma interrogação exclamativa manifestamente censória (“Quê?!” – “Hã?”)… O que até nem era de estranhar, in medias res, se nos ativermos ao contexto de “Crítica” que particulariza, e de que se orgulha, o pensamento filosófico! Como aliás nos dizia Agostinho da Silva, “O mundo avança na medida em que alguém pergunta”.

Mas não. Pelo menos hic et nunc (longe de mim...)!

O meu “quê” não é mais do que a tradução de apenas um dos seis conhecidos tópicos (muletas?), em métrica latina, da retórica clássica: quis, quid, ubi, cur, quomodo, quando. O “quid”, precisamente.

Não pretendo porém socorrer-me da autoridade de Wittgeinstein, no preciso sentido de que “os factos” fiquem presos da linguagem, ou seja, não pretendo que o meu “quid” se torne num signo componente de um qualquer “facto atómico” (i.e., apenas mostrado, não dito!), obviamente numa linguagem de proposições em si mesmo atómicas. Pelo contrário, prefiro aqui evitar, na linha da Teoria da Verdade, de Tarski, a praga do significado das palavras. Tentarei portanto agarrar um problema factual e a sua respectiva resistência à discussão crítica.

Tampouco tenho qualquer presunção (como seria óbvio, descabida), de satisfazer os requisitos que Michel Serres atribui concretamente ao pensamento filosófico: “O único objecto ou a única ocasião da filosofia reside na ‘novidade’que emerge da atenção às ‘circunstâncias’.Ora, se não consigo atingir a “novidade”, pelo menos compete-me ensaiar algum esforço nesse sentido, nem que seja apenas pela “oferta” da atenção das “circunstâncias”. Enfim, procuro não “tentar encher bidões velhos com vinho novo”, como dizia Werner Eisenberg (in Physique et philosophie).

A questão que me proponho tem, assim, origem numa circunstância, ou melhor, em duas:

  • O ensaio do Prof. Ribeiro Graça – “ENSINAR, DESDE SEMPRE – Notas sobre o ensino da Filosofia Antiga ”;
  • O Comentário do Prof. Levi Malho, de 25-07-2007, sobre o mesmo texto.

É que, apesar de termos já à nossa frente um “Texto” brilhante e um brilhante “Comentário”, quer um quer outro não deixaram no entanto de me atiçar, a propósito, alguns pontos de vista, obviamente bem mais modestos (hélas!). Mais uma “vítima” da Filosofia… (sem proveito, mas “feliz”)! Por isso mesmo, perdidamente tocado pelos Estóicos, pareceu-me que deveria agarrar a natural coerência das “coisas”, e tentar conquistar (qual D. Quixote!) a salvífica libertação interna, por um lado, e a possível liberdade cósmica, por outro.

Nada porém que se assemelhe a um “ensaio”!

De comum (Texto/Comentário), um fio condutor nitidamente visível: a proeminência da “Filosofia Antiga” (Texto), projectada “no campo da Filosofia” (Comentário).

Mais especificamente:

  1. A questão da “parceria curricular da ‘Cultura Clássica’ ” … “erradicada do plano de estudos do Curso de Filosofia.” (cf. Texto, ponto 2.).
    Para configurarmos melhor o assunto, diremos que o Prof. Ribeiro Graça, parafraseando aliás as palavras de Guthrie no tocante à sua História da Filosofia Grega, rebate (e bem) tal erradicação: “sempre que partíamos para a ‘Filosofia Antiga’, a ‘Cultura Clássica’ funcionava como o mapa do país que tínhamos de atravessar.” (cf. Texto, ponto 6).
    De resto, é notável o rigor científico e a clareza que nos transmite, quando salienta, vigorosamente, o autêntico estatuto e dignidade da Filosofia Antiga. A Filosofia Antiga é antiga" – diz-nos – não por ser antiga, mas por ser pioneira, além de necessária e actual, no quadro da investigação filosófica (cf. Texto, ponto 1).

  2. Uma queixa (ou denúncia?!) do Prof. Levi Malho, pela classificação, ao nível universitário, da “Filosofia Antiga” como “uma mera sub-secção da ‘História’, variante ‘História da Filosofia’, compartimento T0 da ‘Filosofia Antiga’…” (cf. Comentário).

Neste emaranhado de considerações sobre Filosofia Antiga e Cultura Clássica, no contexto da Filosofia e da História da Filosofia (com extensão, como é óbvio e por coerência, à Filosofia Medieval, Moderna, Contemporânea e respectivas “Culturas”), parece-me que, no fundo, o problema é, sem dúvida, “o quê” da Filosofia, por um lado, e da História da Filosofia, por outro. Ou melhor, o “quê” que as une ou as separa (se é que podemos concebê-las autónomas!).

Esta polémica é alimentada por teses díspares, e por autores de estatura intelectual relevante. A verdade é que estes continuam a manter o seu reduto, quase dogmaticamente! Porquê?! Não me compete, agora, uma resposta. E, muito menos, respostas. Mas julgo que há necessidade, urgência mesmo, de sairmos desse “sono dogmático”, sob pena de vermos a Filosofia entrar em coma. “A filosofia não é sonambulismo, mas sim consciência desenvolvida".[1]


Vejamos:

  1. Se entrarmos pela via simplista das “definições” (sempre difíceis e castradoras), chegamos com facilidade a uma noção consensual de Filosofia e História como disciplinas autónomas. Poderemos sentir alguma dificuldade em encontrar uma definição abrangente para a “Filosofia”, mas não a temos com certeza relativamente à “História”.
    Como “memória da humanidade”, a História debruça-se sobre “objectos passados” (naturais ou humanos), enquanto “páthos” do próprio homem – é verdade! – Mas sempre datados e localizados, ou seja, situados em “um tempo” e “um espaço”. Ou então… não seria “história”!
    Se quisermos porém avaliá-los, e pesar o seu “significado” em termos de interacção transversal, quer ao nível do indivíduo, quer ao nível social, ou mesmo cosmológico, já não estamos certamente no terreno da “história”, mas sim da “filosofia da história”.
    Não se pretende aqui insinuar qualquer desvalorização dos seus objectos ou da sua metodologia.

    “O passado e a verdade são dois mitos que perseguimos incansavelmente. O passado está, irremediavelmente, para trás de nós. A verdade estará, eventualmente, um dia à nossa frente. O historiador é aquele que acredita que a sua missão é dar-nos acesso a ambos. Essa meta é, simultaneamente, o seu grande mérito e a sua maior debilidade.

    A história não é a verdade sobre o passado. A história é uma versão plausível de fragmentos desse desconhecido que tanto fascínio exerce sobre todos nós mas que só alguns arrostam com a responsabilidade de esclarecer.”[2]

    Mas temos consciência da perfeita demarcação de domínios entre “História” e “Filosofia da História”.

  2. A questão muda radicalmente de figura, quando falamos de “História da Filosofia”.
    Naturalmente que não estamos a falar da história das bonecas russas, nem sequer da evolução do Australopithecus até ao Homo sapiens sapiens, etc., etc. …Mas sim da história da própria “filosofia”! Ou seja, admite-se que a “filosofia” possa apresentar-se redutoramente – parece – como “objecto histórico”!
    Sabemos que o conceito de “história da filosofia” assenta numa patológica perversão escolástica do séc. XIX, consagrada pelo Positivismo. Só por isso, deveria merecer algumas reservas.
    Como nos diz o Prof. Joaquim de Carvalho [3], “O aparecimento tardio tem fundamento no facto do objecto da História da Filosofia não ser imediatamente dado, como os seres e os aconteceres da Natureza, mas ideado, como é próprio das funções e dos produtos da Cultura”.
    Por outro lado, parece igualmente ilegítimo (ou pelo menos ambíguo) catalogar o pensamento filosófico por “cortes epocais”, amarrando-a à dinâmica fixista dos paradigmas da cultura e do conhecimento científico. Como se o “filósofo 2” tivesse necessariamente de ser precedido pelo “filósofo 1”, e vice-versa... Isto seria a negação da essência do próprio “filosofar”!
    Verifica-se assim que a chamada “História da Filosofia”, ou não problematiza, como objectos históricos, os sistemas conceptuais que os seus protagonistas produzem, e logo se põe em causa quer a sua metodologia quer o seu valor científico, enquanto “história”; ou os problematiza, e então nem os releva como “factos históricos” em si nem os contextualiza na sua historicidade, mas sim na unidade e na totalidade conceptual para que tende o pensamento filosófico. E não temos, positivamente, “História da Filosofia”, mas sim (admitamo-lo para já…) uma hipotética “Filosofia da História da Filosofia”.
    A “História da Filosofia” não existe, portanto, a não ser “artificialmente”, ancorada na “Tradição”. E, por analogia com o pensamento de Kant, teria aqui de rejeitar, como anticientíficos, quer o argumento da “Verosimilhança” (conjectura), quer o do “Senso Comum”[4].
    E parafraseando ainda Kant, perguntaria: “Como é possível a ‘História da Filosofia’?”.
    Neste sentido, a classificação da “Filosofia Antiga” como “uma mera sub-secção da ‘História’, variante ‘História da Filosofia’, não passaria de uma falácia demasiado plebeia!
    O problema fundamental que se nos oferece, portanto, é a (i)legitimidade da redução da Filosofia a um objecto histórico. Ou seja, está em causa não só o problema da definição de História da Filosofia (enquanto tal) como, sobretudo, o da própria “essência da filosofia”.

  3. A “História da Filosofia” (com essa trágica denominação positivista) tem sido tolerada pela comunidade científica. A sua autenticidade, porém, não pode ser conotada com a natureza ou essência da “Filosofia”. O próprio Hegel, apesar do relevo que lhe atribui como explicação do seu “devir” (materializando no seu “cronismo” a ambição imperial da “verdade absoluta”), foi sem dúvida o “génio” que revolucionou o seu objecto e o seu conceito, introduzindo toda a sua problemática no domínio dos “problemas filosóficos”, ou seja: “É o conceito de história como profecia ao contrário, como desenvolvimento necessário de um todo completo e, por conseguinte, como uma totalidade imóvel e privada de desenvolvimento, como um eterno presente, sem passado e sem futuro.”[5]

Hegel “arruma” as “histórias” da filosofia, ou “as histórias dos filósofos”, reduzindo o recenseamento não teórico dos seus pensamentos (mais rigorosamente, Hegel considera que “as fontes da história da filosofia não são os historiadores, mas os próprios factos a nós presentes, ou sejam as obras dos filósofos”[6] a um duplo problema teórico:

  1. Qual, e onde, a “unidade” do objecto filosófico;
  2. Como se processa o “desenvolvimento” desse objecto lógico-filosófico na “história”.

Esta teorização da procura da “verdade absoluta” e da sua “historicidade”, no pressuposto de que a Filosofia poderia manter “cronologicamente” a sua “essência”, para além das “aparências”, parece no entanto paradoxal. Como história da sua “essência”, seria a história da “MESMIDADE”. Ora, por natureza e definição, a História analisa a “ALTERIDADE”. Donde, ou se considera a “Mesmidade”, e não haveria “História da Filosofia”, ou se considera a “Alteridade”, e tal “História da Filosofia” não interessaria aos filósofos.

Naturalmente, Hegel propõe-nos a conciliação da continuidade (manifestação contínua da “essência” na temporalidade,) com a alteridade, através do seu próprio “sistema”. Isto é, transpõe a “História da Filosofia” para a “Filosofia da História”.

Como também diz Russell: “Para compreender uma idade ou uma nação temos de compreender-lhe a filosofia, e para isso temos de ser em qualquer grau filósofos.”[7].

Mas, genericamente, nem sequer é essa noção hegeliana a que se tem da História da Filosofia. Trata-se de um acervo de factos, biografias, e enumeração (mais ou menos “erudita”) de doutrinas ou ideias contextualizadas numa época, numa cultura. Foi mesmo sob esse signo que ela nasceu; repetindo o Prof. Joaquim de Carvalho, como “um produto tardio e avançado da Cultura.”[8]. Neste sentido, teremos então que distinguir entre Filosofia e História da Filosofia (Filosofia/Erudição). “Filósofo” é o que “pensa”. Erudito é o que “sabe”. Os próprios instrumentos de pesquisa são diferentes. Para o filósofo, a Hermenêutica; para o erudito, a Heurística.

Assuma-se então, com a devida “coragem filosófica”, que a “História da Filosofia” foi baptizada com nome falso. O seu “nome” verdadeiro é “Cultura Filosófica” (que simplesmente poderíamos considerar no âmbito geral de “Cultura”). Nietzsche, aliás, já deu o respectivo soco-no-estômago a muita filosofia mistificadora ocidental.

Se quisermos isolar “sistemas filosóficos”, por um lado, no contexto do “desenvolvimento do pensamento filosófico”, por outro, só o poderemos fazer como “função” das respectivas “Culturas” (delimitação espacial e temporal da Cultura).

Resulta daqui uma conexão perfeitamente lógica e necessária (penso eu) entre “Filosofia” e “Cultura”.

Donde, concluiria com a arquitectura metodológica seguinte:

  • Filosofia Antiga ->Cultura Clássica
  • Filosofia Medieval->Cultura Medieval
  • Filosofia Moderna->Cultura Moderna
  • Filosofia Contemporânea->Cultura Contemporânea

E restará suficientemente clarificado (creio) o meu “Quê” (o “quid”). E de alguma maneira explicado (penso também) o referido “paradoxo” hegeliano.



Porto, Agosto de 2007

Bernardino Pereira



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[1] Hegel, Introdução à História da Filosofia. Coimbra, Arménio Amado – Editor, Sucessor, 1980, 4.ª Ed., p. 83.

[2] Lídia Cardoso Pires, As Mil e uma histórias, Porto, Revista da Faculdade de Letras – Filosofia, II Série, vol. XV-XVI, 1998-99, pp. 211-212.

[3] Hegel, opus. cit. (in Prefácio, p. 7).

[4] Immanuel Kant, Prolegómenos a toda a Metafísica Futura, Lisboa, Edições 70, p. 168-171.

[5] Nicola Abbagnano, História da Filosofia, vol. IX, Editorial Presença, 4.ª Ed., Lisboa, 1991, p. 131.

[6] Hegel, opus cit., p. 166.

[7] Bertrand Russell, História da Filosofia Ocidental, Círculo de Leitores, Primeiro volume, p. 7.

[8] Opus. cit., p. 14.


Obs.: este ensaio também pode ser encontrado no site da A.F.A. - Associação Filosofia Antiga sob Conteúdos/ Ensaios e Estudos ou directamente através deste link.

2 comentários:

Levi Malho disse...

Caros Amigos :

Eis um texto em que a "Meditação" existe! Uma escrita que não é motivada pela "pressa", pela "correria", mas pelo desejo de compreender, ter ideias com clareza e afirmar "posições"!

Aí está. A Filosofia é para se compreender. Por toda a gente,mesmo por toda a gente. Como aqui o Autor fez, com sentido de oportunidade e sem se "perder" no reino das sombras.

A "AFA" e o Autor, uma vez mais, estão de parabéns.

Com toda a consideração,

Levi Malho
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Antifonte Genuíno disse...

Antifonte Genuíno disse...
«O "QUÊ"» é seguramente da autoria de "alguém" que "foi-para-filosofia" "porque-sim". Há pessoas que vão para "ali" sabendo logo à partida que "aquilo" não lhes "dá nada". E, mesmo assim, vão... Porquê? Porque ainda não perderam a capacidade de amar, de se interessar, com gosto e com autenticidade, por algo que ainda vale a pena; porque ainda não deram ordem de prisão à curiosidade e ao querer saber; porque ainda acham que há um tempo que vale a pena "perder"; porque ainda não desistiram de ser livres. Estas pessoas são herdeiras daqueles estranhos transeuntes que andavam para cá e para lá, na marginal de Mileto, colocando-se questões absolutamente impróprias e inoportunas, dando azo à desconfiança e aos contos-e-ditos dos seus conterrâneos. Confesso que gostava de continuar a ler textos desta curiosa personagem que criou «O "QUÊ"».
Assina: Antifonte Genuíno