quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Apontamentos de Filosofia Antiga


Nota prévia: este texto destina-se essencialmente aos estudantes que se iniciam no estudo da Filosofia Antiga.


Terceira Parte


Sofistas, Sócrates e Socráticos menores


1. A segunda metade do séc. V a. c.


1.1. O quadro histórico

A segunda metade do séc. V. a. C. é importante sob vários aspectos, entre os quais o filosófico.

Vamo-nos deter, quase exclusivamente, sobre Atenas, por razões perceptíveis ao longo desta exposição.

Para uma melhor compreensão dos movimentos filosóficos tracemos, primeiramente, as linhas gerais do quadro político.

Em meados do séc. V. a. C., o estratego Péricles apresenta-se como o símbolo de um determinado regime - o democrático; e o círculo que constituiu ao seu redor foi bem representativo do ambiente cultural que, então, se respirava. Plutarco, na sua Vida de Péricles, dá-nos algumas indicações preciosas sobre a constituição de tal círculo.

Assim, sabe-se que o sofista Protágoras foi um dos íntimos do grande político (55); e pode-se acrescentar ter sido ele quem elaborou a constituição para a colónia de Túrio, construída sobre a arrasada cidade de Síbaris. Zenão de Eleia, o célebre discípulo de Parménides, gozou, também, da mesma audiência.

"A sua maneira era discutir com toda a gente", diz Plutarco, "empregar os argumentos mais subtis e levar os adversários a não saberem que responder-lhe" (4, Trad. Lobo Vilela).

É possível que tanto o sofista como o eleata tivessem preparado Péricles para os grandes embates na assembleia, onde o discurso bem como a arte de disputar constituíam os grandes temas para a vitória política.

Plutarco, que continuamos a seguir, não esconde em vários pontos da sua obra a admiração por Anaxágoras:


"o amigo íntimo de Péricles...aquele, enfim, que lhe inspirou a grandeza da alma que o distinguia, a dignidade que ressaltava de toda a sua conduta, foi Anaxágoras de Clazómenas..." (5, Trad. Lobo Vilela).


Estas figuras que rodearam Péricles, sem falarmos de outras que foram, também, importantes indiciam, já, o quadro intelectual da Atenas na segunda metade do séc. V.

Abordando, agora, o aspecto político, o nosso melhor guia é o historiador Tucídides, que foi um chefe militar ateniense, no conflito que opôs Atenas e Esparta e também um pensador político que, na sua obra Guerra do Peloponeso, embora com moderação, não esconde a sua simpatia pelo dirigente ateniense.

Em texto que ficou célebre, o historiador apresenta uma oração fúnebre, pronunciada pelo estratego, em que este aproveita para elogiar o regime sob o qual vivia Atenas (II, 35-46).

É um elogio à democracia, cujo regime é caracterizado pela possibilidade de todos os cidadãos, qualquer que seja a sua posição económica, ascenderem aos mais altos cargos da polis.

Mas impõe-se fazer algumas considerações quanto à sociedade ateniense e à democracia no tempo de Péricles, para determinar o que há de novo na vida da Cidade, assim como o que se deve entender por democracia, enquanto Péricles esteve à frente dos destinos de Atenas.

Sobre o primeiro ponto, parece não haver dúvida em assinalar-se uma transformação que, embora ainda não radical, contrastava com a de Atenas de algumas décadas atrás.

Os grupos familiares que agregavam uma série de partidários cedem o lugar a grupos mais vastos, que se diferenciam dos anteriores pelo maior número de membros e por um esboço de ideologia que os vai informando.

Embora encaremos, cautelosamente, toda e qualquer comparação, permitimo-nos afirmar que, cerca de 450-440 surgem as facções políticas, aproximadamente, como hoje as entendemos. Agrupamentos, como dissemos, mais vastos (em que o núcleo já não era o clã familiar), com uma doutrina já assente e cujo objectivo era a conquista do poder e a instauração de um determinado tipo de governo.

Assim, frente a frente, encontravam-se a facção democrática e a aristocrática. A primeira agrupava, essencialmente, os cidadãos, cujo privilégio não era o sangue, ou seja, aqueles que pertenciam à classe popular e à burguesia de riqueza grande ou mediana, alcançada através do comércio e da indústria, aos quais se juntaram alguns nobres. A segunda era constituída pela nobreza, que não queria perder os seus antigos privilégios, a qual atraiu, também, a si alguns ricos burgueses. Tal facção visava, fundamentalmente, constituir um governo oligárquico.

Devemos fazer algumas considerações, para uma melhor compreensão, da democracia da qual Péricles era o expoente máximo. Em primeiro lugar, o estratego era um Alcmeónida, isto é, um membro de uma das famílias mais poderosas de Atenas que, ao longo de gerações, lutava pela conquista do poder. O próprio Tucídides, simpatizante deste político, não se furta a dizer que o governo de Atenas, no seu tempo, era essencialmente o governo de um homem só, ou seja, que, sob a capa da democracia, Péricles tinha, praticamente, todos os poderes, restando ao demos aplaudi-lo.

Falemos, agora, um pouco sobre algumas características da democracia ateniense.

Em primeiro lugar, o corpo de cidadãos, aqueles que tinham o direito de votar e de ser eleitos, era constituído apenas por uma parte da população: talvez 10 por cento. Havia, assim, uma limitação desta democracia, pois, nem todos tinham a capacidade política.

Em segundo, diremos, agora, que esta democracia era directa. A Assembleia Popular, constituída por todos os cidadãos, detinha o poder político e a condução dos negócios públicos.

Em terceiro lugar, dever-se-á anotar que o regime democrático ateniense, ao longo do tempo criou mecanismos para controlar (na medida do possível) os aspectos demagógicos. Anotar, ainda, que a democracia em Atenas, durante a sua longa existência, se foi aperfeiçoando e, não obstante alguns acidentes de percurso, serviu os interesses da Cidade.

*

Os acontecimentos ocorridos em 411, em plena Guerra do Peloponeso, são elucidativos de como algo profundo ocorria na vida ateniense. Nesse ano, os oligarcas tomaram o poder através de uma revolta, constituindo o chamado governo dos Quatrocentos, o que mostra a dificuldade que a nobreza tinha em tomar um lugar de relevo na condução da vida política, sem recurso à força.

Esse facto mostrava, também, como se iam extremando, cada vez mais, os campos ideológicos, manifestando-se uma consciência muito aguda dos conteúdos doutrinários das facções em presença.

Mas, o governo dos Quatrocentos, cujo teórico seria Antifonte, contou com a firme oposição de uma parte da frota e do exército que, na altura, estacionava na ilha de Samos, o que se poderá interpretar como a expressão de um sentimento profundamente democrático do povo ateniense.

*

Falar da segunda metade do século V, sob o ponto de vista histórico conduz-nos ao grande conflito conhecido por Guerra do Peloponeso. Esta guerra ocupa, praticamente, as três últimas décadas do século V.

O conflito teve a sua origem na pretensão de hegemonia manifestada pelas duas cidades-estados mais poderosas da Grécia - Atenas e Esparta; não só factores económicos mas também ideológicos estiveram em jogo.

Atenas tinha constituído um império, essencialmente marítimo, cujo grande obreiro tinha sido o próprio Péricles.

O poderio ateniense centrava-se, sobretudo, no quadrante oriental do mundo grego e que procurava, já, estender-se para as regiões do Ocidente. Plutarco, na Vida de Péricles diz que este


"tinha o cuidado de refrear as loucas pretensões dos Atenienses... começa já, até, a acender-se no coração da maior parte deles este fatal e desgraçado desejo de subjugar a Sicília, desejo que os oradores do partido de Alcibíades inflamaram depois com tanta violência" (33, Trad. Lobo Vilela).


Era este império, vasto em termos gregos, que fornecia as matérias-primas de que Atenas necessitava, enquanto esta dava protecção militar às suas aliadas. Os impostos recebidos por Atenas, assim como os lugares de funcionários e soldados que constituíam a estrutura ateniense, faziam com que a Cidade da Ática pudesse viver desafogadamente, ao mesmo tempo que uma parte dos seus habitantes tinha uma ocupação que lhes dava, pelo menos, para viver razoavelmente.

Compreende-se, assim, que a facção democrática se encontre empenhada na defesa dos resultados já conseguidos, obtendo, por isso, um grande apoio popular.

Por razões ideológicas, o movimento aristocrático era pró-espartano, sendo, portanto, contrário a uma guerra que opusesse a sua Cidade a Esparta e parece, também, que não estaria interessado na manutenção de um império.

As cidades-estados, ameaçadas por Atenas, juntaram-se a Esparta e, a guerra pela supremacia prolongou-se durante vinte e oito anos, com excessos de ambas as partes.

As devastações realizadas pelo exército espartano na Ática, assim como as pilhagens no litoral do Peloponeso pela frota ateniense, constituíram marcos de uma violência que transbordou desses limites geográficos. Relembremos, apenas, o massacre efectuado pelos atenienses na pequena ilha de Melos, em que os homens foram mortos e as mulheres e as crianças feitas escravas.

Quanto a guerra já não favorecia os atenienses, estes entraram numa espécie de demência.

Os próprios estrategos, embora vencedores junto das ilhas Arginusas, não podendo recolher os corpos dos seus compatriotas, devido a uma tempestade, foram condenados em bloco - o que era contra a lei.

Mas a batalha de Egospótamo pôs fim à guerra do Peloponeso devido à destruição da esquadra ateniense, o que levou à celebração da paz em condições, talvez, não muito duras para a Cidade que tinha realizado várias violências, a coberto de razões políticas e em nome da justiça.

*

Em 404, Atenas obteve a paz a troco da destruição das suas muralhas e da perda da frota e do império. A facção democrática, sob a pressão interna e externa, não se conseguiu manter e os oligarcos constituíram um governo, apoiado pelos espartanos. O novo governo cedo conheceu a cisão, pois Crítias era partidário de um regime de força, enquanto Terâmenes, representante dos moderados, pretendia uma nova constituição.

É provável que esta cisão tenha resultado do facto de Terâmenes ver, com clareza, que o apoio ao governo ia diminuindo devido às perseguições e extorsões que, então, se praticavam. Terâmenes pagou a sua moderação com a morte.

Este governo, que ficou conhecido por governo dos Trinta Tiranos levou os democratas a refugiarem-se em Tebas (onde se encontrava Trasíbulo, que já em 411 se tinha oposto ao regime dos Quatrocentos), e em Mégara, que, também, abriu as suas portas aos refugiados; a estes exilados juntaram-se, depois, os partidários de Terâmenes.

Com um corpo de cidadãos reduzidos a três mil, e uma onda de terror que, segundo Aristóteles, levou à morte cerca de mil e quinhentas pessoas, o governo oligárquico tornou-se odioso.

Em 403, Trasíbulo, reunindo os exilados, conquistou, primeiramente, o Pireu, entrando, em seguida, na própria Atenas.

Sem grande oposição das forças espartanas, o regime democrático foi restaurado, tendo os novos governantes usado de uma moderação notável em relação aos seus adversários.




1.2. O quadro Cultural

Depois de termos traçado o quadro histórico, nas suas linhas gerais, da segunda metade do século V, é altura de indicarmos os grandes momentos sob o ponto de vista cultural.

Ocupando lugar de relevo no movimento filosófico dos meados do século V, situava-se Anaxágoras de Clazómenas que, como já disse, pertenceu ao círculo de Péricles. Ele foi, juntamente com Demócrito, o último grande pensador do chamado período pré-socrático.

A sua presença em Atenas é indício muito provável do desejo de Péricles em ver desenvolver-se, na Cidade, a especulação filosófica, a qual, presente em zonas da colonização grega, tinha estado arredada de Atenas.

A estadia do ilustre filósofo tem, pois, um elevado significado cultural, na medida em que a Filosofia mudava de quadrante geográfico, passando da Grande Grécia para a Ática.

Com muita probabilidade, devido à sua presença no círculo de Péricles, o filósofo foi acusado de impiedade, crime considerado muito grave em Atenas (a acusação de impiedade, neste caso, devia esconder uma perseguição política).

Acusado de tal crime, Anaxágoras retirou-se para Lâmpsaco.

Os mais recentes pensadores, da linha pré-socrática, são Hípon de Samos, que restaura o ponto de vista de Tales, Diógenes de Apolónia, possivelmente o de maior valor, que regressa a Anaximenes, e Arquelau, discípulo de Anaxágoras, que tentou conciliar o pensamento deste último com o do milésio Anaximenes.

Todos eles foram defensores de um eclectismo em que as teorias dos pensadores de Mileto foram reelaboradas com a ajuda de conhecimentos de ordem científica especializada, sobretudo médica, conhecimentos esses que tiveram um surto de grande desenvolvimento pelos meados do século V.

Mas este eclectismo não chegou a impor-se e se a ciência conhecia o apogeu, a filosofia teve de fazer uma viragem, devida como veremos, em grande parte, ao movimento sofístico.

Se a Filosofia tinha nascido em Mileto, é Atenas que vai assistir à aurora de um novo impulso filosófico.

*

A segunda metade do século V foi fértil em transformações políticas, sociais e culturais.

É a altura em que a ciência e a técnica ganham foros de cidadania, havendo alguns dos seus cultores cujos nomes vamos recordar.

Em primeiro lugar, citemos os matemáticos Enópides e Hipócrates de Quio, que prolongaram um domínio cultivado pela escola pitagórica, a qual alcançou êxitos assinaláveis até o século IV a. C., e cujos representantes mais famosos foram conhecidos pelo próprio Platão, sobretudo quando este fez a primeira viagem à Grande Grécia.

Famoso, também, o astrónomo Méton, que lançou ombros à reforma do calendário, pertencendo a essa plêiade de cientistas que a Grécia via surgir. Embora a técnica não tivesse ganho importância, Plutarco (V.P., 23) assinala o nome do engenheiro Artemon que acompanhou Péricles no cerco de Samos e fora o inventor de algumas máquinas de guerra utilizadas nessa altura.

*

O grande acontecimento científico, em nossa opinião, foi levado a cabo pela Medicina, cujo centro principal foi a Escola de Cos dirigida pelo célebre Hipócrates. O Corpus Hipocraticum, que chegou até os nossos dias, não permite, todavia, distinguir o que pertence ao mestre e aos seus discípulos.

Werner Jaeger teve entre outros, evidentemente, o grande mérito de, na sua Paideia, aprofundar o significado e mostrar o impacto que a ciência médica teve no seu tempo. São do célebre historiador estas palavras, bem elucidativas:


"Ainda que não tivesse chegado até nós nada da antiga literatura médica dos Gregos, seriam suficientes os juízos laudatórios de Platão sobre os médicos e a sua arte, para concluirmos que o final do século V e o IV a. C. representaram, na história da profissão médica, momento culminante do seu contributo social e espiritual." (Trad. Artur Parreira)


E, na linha do que pretendemos, essencialmente, estudar, outra passagem do mesmo historiador parece-nos, também, da máxima importância:


"É perfeitamente lógico que, ao fundar a sua ciência ético-política, Platão não começasse por se apoiar na forma matemática do saber nem da filosofia específica da natureza, mas, como nos diz no Górgias e em muitos lugares, tomasse antes, por modelo, a arte médica." (Trad. Artur Parreira).


Esbocemos, porém, as grandes linhas da medicina grega, para, com mais clareza, vermos qual o lugar que ela ocupa na cultura dos séculos V e IV a. C.. Em vários escritos do Corpo Hipocrático ressalta a influência que a filosofia pré-socrática exerceu sobre alguns médicos, pois, as doenças são estudadas numa perspectiva ampla, em que o Homem não pode ser desligado da própria natureza.

Tal significa que o conceito de physis é transposto da reflexão filosófica para o campo da ciência médica. Para ilustrarmos a voga deste conceito bastará dizer que, num dos escritos hipocráticos, se aconselha o médico que se dirija a qualquer cidade, para estudar, em primeiro lugar, a situação desta, as águas, os ventos, portanto o que era matéria da chamada meteorologia; só de posse destas informações ele estaria habilitado a debruçar-se sobre o doente.

O conceito de natureza, de physis, ainda é tomado no sentido em que os milésios o empregaram.

Se os escritos um pouco mais antigos mostram a influência da chamada filosofia da natureza, todavia a medicina dá um passo em frente e será esta que, em meados do século V, influencia os próprios pensadores como Anaxágoras, Diógenes e Hípon, sendo este último, também, um médico.

Surgem os estudos sobre os alimentos, ou seja, a dietética, assim como as obras sobre a ginástica. Tais conhecimentos são tendentes a que o Homem atinja um equilíbrio, pois o universo tem uma ordem harmoniosa, e o Homem, inserido neste mesmo universo, deve constituir, também, uma harmonia.

Dos conceitos mais importantes que vão surgir é, sem dúvida, o da natureza humana que mais interessa, aqui, focar. Do sentido lato de natureza passa-se, agora, para o sentido mais restrito da natureza que é própria do Homem, preocupando-se a ciência médica com a dimensão eminentemente antropológica (como é natural numa ciência deste tipo).

Assim, alguns escritos do Corpo Hipocrático mostram diferenças em relação às doutrinas dos pré-socráticos. E será essa noção que, por sua vez, irá influenciar o próprio movimento sofístico que, segundo Robin, foi sobretudo permeável ao Acerca da Arte, um dos tratados da colecção hipocrática.

A autonomia da ciência médica está bem expressa na obra intitulada Da Medicina Antiga, cujo autor considera que esta ciência não necessita de uma nova fundamentação, e aponta para um campo mais restrito, para um certo empirismo, em que o Homem fosse estudado, não já nas suas relações com a Natureza, mas em si próprio.




2. Os sofistas



2.1. Preliminares

Um dos grandes movimentos culturais dos meados do século V foi, sem dúvida, a sofística, com uma repercussão que ultrapassa esse século, penetrando no seguinte, sendo pois contemporâneo do próprio Platão.

Protágoras, Górgias, Pródico e Hípias (seguindo a ordem cronológica) são os representantes máximos desta corrente sendo, ao mesmo tempo, os seus iniciadores. A actividade destes quatro sofistas decorre mais ou menos entre 450 e princípios do século IV. Surge ainda, uma geração mais jovem da qual destacamos: Trasímaco, Pólo, Xeníades, Licofron, Alcidamas.

A acção destes homens denegrida durante muito tempo é, nos nossos dias, e de uma maneira geral, encarada de forma positiva. L. Robin, em La Pensée Grecque, ainda escreveu estas linhas:


"Quaisquer que tivessem sido as fraquezas e as taras profundas, a obra dos sofistas, do século V, não deve ser depreciada. Sem dúvida, o seu método é formal, a maioria das vezes vazio de pensamento pessoal e de sinceridade" (p. 177).


Estas reticências não são compartilhadas por Werner Jaeger que, sobre este movimento, afirma o seguinte:


"Do ponto de vista histórico, a sofística é um fenómeno tão importante como Sócrates ou Platão. Mais, não é possível concebê-los sem ela" (Paideia, p.316, Trad. Artur Parreira).


A opinião deste historiador é partilhada, entre outros, por Dupréel e Guthrie tendo este último, na minha opinião, efectuado um dos estudos mais profundos sobre os sofistas.

Após estas linhas introdutórias convém salientar que o sofista era um mestre do saber (sábio, filósofo e sofista foram termos equivalentes), um profissional do ensino, como hoje diríamos, e a sua acção só se compreende pelas mutações cada vez mais rápidas que a sociedade grega sofria.

A partir dos meados do século V, como já disse, a presença das facções políticas, a luta ideológica, transposta, por vezes, para o conflito bélico, fazia com que a carreira política fosse, simultaneamente, mais difícil e mais aliciante.

Sobretudo a juventude, que queria tomar parte na gestão da coisa pública, tinha de ter uma preparação cuidadosa, pois, era perante as assembleias, nas quais estavam presentes os cidadãos, que se travava a luta pelo poder.

Os sofistas respondiam a essa necessidade assim como àquela, sobretudo na classe mais elevada, que consistia na curiosidade pela análise literária e pelos temas filosóficos e científicos. O fenómeno sofístico tem de ser compreendido, portanto, no enquadramento histórico e cultural, o qual, a ser desconhecido, tornaria ininteligível o aparecimento e a voga destes profissionais do saber.

Até que ponto os sofistas desenharam um movimento com interesse para a História da Filosofia constitui um tema controverso. Referindo-se ao aparecimento do subjectivismo e do relativismo filosófico, W. Jaeger defende a seguinte posição:


"O esboço duma teoria por parte de Protágoras não justifica tais generalizações, e é um erro evidente de perspectiva histórica pôr os mestres da areté ao lado dos pensadores do estilo de Anaximandro, Parménides ou Heraclito." (Paideia. Trad. Artur Parreira)


A posição de Werner Jaeger, que é acompanhado por outros autores consiste em considerar que as Histórias da Filosofia Grega (talvez não todas) cometem um erro ao considerarem a sofística como uma corrente filosófica.

Problema, sem dúvida, delicado este, o de se considerar o movimento sofístico como devendo ou não entrar na História da Filosofia. Na minha opinião considero o estilo destes homens, sem dúvida, diferente dos investigadores da physis, o que não me parece suficiente para os colocar fora da História da Filosofia.

A grande objecção que levanto a esta tese é a de que não se compreenderia a luta de Platão contra os sofistas, praticamente ao longo de toda a sua obra, se estes não tivessem uma envergadura intelectual, e se não tivessem levantado problemas pertinentes no campo filosófico. Se entre os sofistas foi Protágoras o mais longamente atacado por Platão (teremos de ver mais tarde as razões), vários diálogos mostram, com clareza, que o filósofo considerou, também, como adversários difíceis não só os primeiros sofistas como alguns dos seus discípulos.

Citamos, ainda, Aristóteles que em vários passos da sua obra se debruça sobre estes homens.

O movimento sofístico deve ter o seu lugar na História da Filosofia Grega, segundo penso, e tentarei mostrar que a sua problemática foi importante para o desenvolvimento ulterior da filosofia.

Os sofistas a que nos vamos referir são, por ordem cronológica, Protágoras de Abdera, Górgias de Leontinos, Pródico de Céos e Hípias de Elis. Mas antes de entrarmos numa breve exposição do seu pensamento apresentarei alguns traços gerais deste movimento:

  • os sofistas não constituíram uma escola filosófica: por assim dizer, cada sofista constituiu a sua escola;
  • os sofistas são professores itinerantes, ou seja, permanecem por períodos, mais ou menos longos, em várias cidades gregas;
  • os sofistas recebem honorários pelos seus cursos;
  • os sofistas não pertencem à classe mais elevada da Grécia; talvez, por essa razão, as suas lições são pagas;
  • os sofistas são professores da excelência política ("politike arete");
  • estes professores introduzem duas técnicas da máxima importância: a erística e a retórica.

Diremos, ainda, que o movimento sofístico apresenta dois aspectos que deverei mencionar:

  • não obstante a sua originalidade ele não corta, por completo, com o passado: alguns sofistas continuam a debruçar-se sobre as questões cosmológicas;
  • o movimento sofístico teve um impacto notável em vários sectores da cultura grega que mencionaremos um pouco mais adiante.

*




2.2. Referência aos quatro grandes sofistas

Para uma melhor compreensão do movimento sofístico farei uma referência a Protágoras, Górgias, Pródico e Hípias; coloquei os quatro grandes sofísticos por ordem cronológica.


2.2.1. Protágoras de Abdera

Protágoras, nascido em Abdera, foi o primeiro a intitular-se sofista e pertenceu, como já disse, ao círculo de Péricles.

O sofista ficou famoso pela seguinte frase:


"O homem é a medida de todas as coisas, daquelas que existem e daquelas que não existem." (frg. B1)


A grande questão que ainda, hoje, se coloca é se o termo "homem" deve ser tomado em sentido colectivo (humanidade) ou no sentido individual (cada homem).

Tenho defendido que o termo "homem" deve ser considerado no sentido individual. Os testemunhos que possuímos, o de Platão, Aristóteles e Sexto Empírico apontam para esta interpretação.

Poder-se-á argumentar que os testemunhos que citei podem não ser verídicos e desta forma a minha interpretação não se poderia manter.

Vejamos, agora com mais detalhe, esta questão:

  1. os testemunhos dos três autores citados são claros a interpretar o termo homem no sentido individual;
  2. os testemunhos que apresentei estão colocados ao longo do tempo: Platão, primeira metade do séc. IV, Aristóteles, segunda metade do séc. IV e Sexto Empírico, séc. II-III D.C.;
  3. só podemos trabalhar sobre os testemunhos que possuímos;
  4. para além dos testemunhos citados os restantes testemunhos e fragmentos não põem em causa a interpretação que apresentei.

"O homem é a medida de todas as coisas" constitui o cerne do fragmento: aprofundemos o seu sentido.

Podemos, agora, ler o fragmento da seguinte forma:

  • cada homem tem a sua verdade sobre todas as coisas

Esta leitura leva-nos aos seguintes aspectos:

  1. há uma verdade para cada um;
  2. todas as verdades têm a mesma graduação;
  3. se cada um tem a sua verdade, só existe um discurso (o da verdade);
  4. segundo a alínea 3) não existe o discurso falso;
  5. há uma ruptura com os pré-socráticos; para estes a verdade está nas coisas enquanto para Protágoras ela está em cada homem.

*

No diálogo Protágoras, Platão apresenta um longo discurso que atribui ao sofista; este discurso ficou conhecido por mito de Epimeteu e Prometeu.

Este mito apresentado por Protágoras mostra o progresso da Humanidade ao longo do tempo, desde os seus inícios até à Cidade regida por leis justas.

É interessante notar que o sofista considera uma evolução humana não só material mas também cultural.

Protágoras considera que a Cidade subsiste com leis justas, como já disse, e também com a participação de todos os cidadãos.

O sofista não é um reformador político, segundo a minha opinião, mas sim um defensor da democracia ateniense.

A questão que se coloca, neste momento, é saber se há uma conciliação deste mito com a frase "O homem é a medida de todas as coisas."

*

Protágoras afirmou que existe um discurso forte e um discurso fraco. A posição do sofista tem dado lugar a variadas interpretações.

Segundo penso, é através desta posição de Protágoras que se articulam a frase "o homem é a medida de todas as coisas" e o mito de Epimeteu e Prometeu.

Se cada homem tem a sua verdade, esta posição levada ao extremo conduziria a uma anarquia que aniquilaria a comunidade, ou seja, a própria Cidade.

Ora, nós vimos que Protágoras é defensor da harmonia na Cidade e também do regime democrático.

Segundo, penso, o discurso forte é aquele que reúne a maioria enquanto o discurso fraco é o da minoria.

Assim, para manter a coesão na Cidade é necessário que as leis provenientes da maioria sejam seguidas e respeitadas.

Parece-me que "o homem é a medida de todas as coisas" não colide com as leis oriundas dos órgãos políticos: o cidadão respeita as leis embora cada um mantenha a sua verdade.

A importância e a influência de Protágoras foram notáveis o que tentaremos mostrar, ainda, nestes Apontamentos.





2.2.2. Górgias de Leontinos

Górgias é oriundo de Leontinos (Sicília) onde a retórica deu os seus primeiros passos. O sofista teria contactado com Empédocles do qual teria sido discípulo.

Górgias foi o grande retórico da segunda metade do século V; ficou famoso pelos seus discursos mas também por ter escrito um tratado de Filosofia (Do Não Ser ou da Natureza).

O tratado (frg. B3) apresenta três teses que o sofista vai desenvolver:

  • Nada existe;
  • se existe alguma coisa não é apreendida;
  • se existe alguma coisa que se apreenda não pode ser comunicada a outrem.

O objectivo do Tratado tem sido considerado, por vários historiadores, como um ataque à Escola eleata.

Segundo penso não é, apenas, a Escola eleática a ser visada mas também outras estariam na mira de Górgias.

O que o sofista queria mostrar, por absurdo, é que se a primeira tese fosse infirmada cair-se-ia na segunda e se as duas primeiras fossem infirmadas cair-se-ia na terceira; Górgias bloqueava, assim, todas as saídas.

A terceira tese é importante, na medida em que, Górgias aproveita a ocasião para dissertar sobre as coisas e as palavras.

*

Se o Tratado de Górgias é importante, todavia, a grande fama granjeada por Górgias foi a sua utilização da Retórica.

Os precursores do sofista são sicilianos, da região da qual Górgias é oriundo. Mas tudo aponta no mesmo sentido: se os precursores dão o primeiro passo, Górgias vai mais longe e a Retórica consolida-se devido ao seu esforço.

A Retórica é a técnica de bem falar, constituída por discursos que visam persuadir os ouvintes.

Para atingir os seus fins o discurso tem de ser correcto na utilização da língua mas também na utilização de um conjunto de regras.

No seu discurso Elogio de Helena, Górgias mostra a força da palavra:


"O discurso é um senhor soberano que, com um corpo diminuto e quase imperceptível leva a cabo acções divinas. Na verdade, ele tanto pode deter o medo como afastar a dor, provocar a alegria e intensificar a compaixão" (11.8 - Trad. de Manuel Barbosa e Inês Castro).


Nesta passagem vê-se o vigor, a convicção e o orgulho de Górgias no poder da palavra; não obstante o "corpo diminuto", o discurso "leva a cabo acções divinas".

É minha opinião que Górgias quer mostrar que a palavra é superior à força física. O sofista, possivelmente, é defensor do embate entre discursos em detrimento dos combates entre guerreiros. Se assim é, estamos perante uma atitude humanista e civilizada.

A posição de Górgias é reforçada na seguinte passagem:


"Na verdade, assim como certos medicamentos expulsam do corpo certos humores, suprimindo uns a doença e outros a vida, do mesmo modo de entre os discursos, uns há que inquietam, outros que encantam..." (11.14 - Trad. de Manuel Barbosa e Inês Castro) .


A passagem, agora, transcrita reforça e amplia a primeira passagem.

É a exemplificação do poder da palavra mas Górgias, ainda, vai mais longe.

Considero que Górgias acreditando no poder do discurso tem a consciência de que este pode ser positivo mas também negativo. É possível que o retórico queira alertar, igualmente, para a possibilidade do mau uso por parte de alguns oradores.

Górgias ficou na História da Cultura como cultor de uma técnica que chegou até o nosso tempo.

*

Obs.:

As passagens da tradução que utilizamos pertencem à seguinte obra: Górgias, Testemunhos e Fragmentos, Lisboa, Colibri, Tradução, comentário e notas de Manuel Barbosa e Inês de Ornellas e Castro.




2.2.3. Pródico de Ceos

Abordarei, apenas, alguns aspectos do pensamento de Pródico de Ceos.

Este sofista teve grande importância no campo da linguagem. Para o movimento sofístico este campo era importante para que a retórica e a erística se constituíssem como técnicas fortes e persuasivas.

Pródico é citado pela sua perícia em distinguir os vários sentidos das palavras. A sua preocupação rasgava novos horizontes não só para a sofística mas também para os gramáticos.

*

Pródico é, igualmente, célebre por um apólogo conhecido por Escolha de Herácles.

Estamos perante uma incursão no terreno da moral. O sofista apresenta Herácles na encruzilhada constituída pela Virtude e pela Luxúria. As duas personagens apresentam os argumentos para o herói seguir o caminho indicado por cada uma delas.

A Luxúria mostra um caminho, sem obstáculos, repleto de prazeres. Por seu lado, a Virtude indica um caminho, difícil e penoso mas que vai atingir o bem estar espiritual, a felicidade.

O herói Herácles escolhe o caminho da Virtude não obstante deixar de lado as delicias da Luxúria.

Herácles ao seguir a Virtude atinge, como disse, a felicidade e a consideração dos Gregos.

A breve referência que fiz ao apólogo de Pródico mostra que a corrente sofística, na segunda metade do século V, pelo menos em parte, nem é amoral nem imoral.

No caso de Pródico é bem clara e patente a sua preocupação pela moral a qual constitui uma parte importante da sua obra.




2.2.4. Hípias de Élis

Hípias, oriundo da Cidade de Élis, o mais jovem dos quatro grandes sofistas, é aquele que foi mais maltratado por Platão. Por aquilo que conhecemos de Hípias, ele não merecia a critica contundente e, sobretudo, o ridículo que lança sobre o sofista.

As indicações que possuímos mostram uma série de obras distribuídas por vários campos. Citemos, apenas, duas para ilustrar o que dissemos:

  • Lista de nomes de povos (frg. B 2)
  • Lista dos vendedores olímpicos (frg. B 3)

Quanto ao conteúdo destes livros só podemos avançar com conjecturas.

O primeiro livro citado é possível que tivesse apresentado aspectos etnográficos e talvez, geográficos para poder situar os povos que fariam parte da Lista.

O segundo livro, que apresenta os vencedores olímpicos, talvez tivesse, também, o objectivo de constituir uma cronologia, tarefa, sempre, importante naquela época.

*

Vamos, agora, debruçarmo-nos sobre um tema que, tudo o indica, era importante para o sofista. Platão no diálogo Protágoras, 337 C-338 B coloca Hípias a apaziguar uma discussão:


"...vós que estais aqui presentes, considero vos como pertencendo todos à mesma linhagem, à mesma família, à mesma Cidade, por natureza e não pela lei" (Protágoras,337 C)


Se Platão é fiel ao pensamento do sofista podemos extrair vários aspectos desta parte do discurso de Hípias:

  • todos pertencem à mesma família o que significa que não há barreiras intransponíveis entre os homens;
  • as diferenças entre grupos de homens (famílias, Cidades, etc.) deve-se à lei, ou seja, à lei por convenção;
  • Hípias considera que a lei mais justa é a da natureza.

O sofista vai continuar o seu discurso que é importante para a compreensão da sua doutrina:


"Por natureza, o semelhante é da mesma linhagem do que o semelhante, enquanto a lei, tirana dos homens comete uma violência à natureza" (Protágoras, 337 C).


Tentemos dilucidar a passagem transcrita:

  • Hípias faz a distinção entre lei por natureza e lei por convenção. A lei por convenção é um produto do legislador ou de um órgão político. A lei por convenção pode ser modificada e as Cidades apresentam as suas leis que podem ser variáveis de Cidade para Cidade.
  • A lei por natureza é universal e repousa sobre a Natureza;
  • a terminologia lei por convenção e lei por natureza é empregada pelos sofistas e, sobretudo, no século IV, vai ser usada por pensadores que não são sofistas;
  • a lei por convenção pode ser violenta em relação à lei por natureza e não é, como já disse, universal;
  • talvez, por influência de Empédocles o sofista vai considerar que "o semelhante é da mesma linhagem do que o semelhante" o que significa, que o semelhante atrai o semelhante;
  • o semelhante atrai o semelhante significa, pela lei da natureza que o homem respeita e gosta do homem;
  • para Hípias a lei por natureza não conduz à lei do mais forte.

Cálicles, uma personagem do diálogo platónico Górgias ao defender a lei por natureza identifica-a com a lei do mais forte.

Cálicles considera que o mais forte deve mandar nos outros e que as suas paixões não devem ser cerceadas.

Ora, Hípias, segue um caminho diferente: a lei por natureza leva à solidariedade e ao respeito do semelhante pelo semelhante.

Hípias, o sofista, é um humanista e tem uma visão cosmopolita, como também Demócrito a teve.

Esta pequena digressão, segundo penso, mostra, pelo menos, que alguns sofistas se preocuparam com a moral.




2.3. A importância da sofística.

Nos nossos dias a reabilitação da sofística, como já disse, é um facto, embora se possa cair em exageros um pouco semelhantes aos anteriores.

Durante um longo período, os sofistas foram considerados não só como personagens menores mas também como prejudiciais à cultura do seu tempo.

O ataque à sofística e o seu denegrimento inicia-se, já, na segunda metade do século V, ou seja, em vida dos seus grandes representantes. Aristófanes, o comediógrafo, é um dos seus críticos contundentes. Mas considera-se Platão, mais do que Aristóteles, como um dos detractores da sofística.

Considero que se atentar na crítica de Platão aos sofistas pode-se verificar os seguintes pontos:

Segundo penso, Platão é, por vezes, injusto em relação aos sofistas: os diálogos Hípias Maior e Hípias Menor são exemplos do que acabei de dizer.

Creio, todavia, como já foi notado por vários historiadores, que Platão mostra deferência por alguns sofistas: a apreciação da doutrina de Protágoras no Teeteto é paradigmático deste ponto de vista; o fundamental na minha perspectiva é, porém, a diferença radical de posições mantidas por Platão e pelos sofistas. Vejamos um pouco melhor este ponto.

Os sofistas, de uma forma geral, defenderam o primado da sensação. O filósofo irá considerar que o sensível, pela sua mobilidade, não pode ser objecto da Ciência; esta terá de possuir um objecto estável e universal. Mas também alguns sofistas consideram que há apenas um único discurso, ou seja, não há discurso verdadeiro e falso o que será, igualmente, combatido por Platão.

Acresce ao que já dissemos a oposição platónica às técnicas da eristica e da retórica.

O que queremos dizer é que existe uma oposição radical entre Platão e os sofistas. E se por um lado tudo isto mostra a animosidade do filósofo em relação aos sofistas por outro mostra a importância filosófica que estes tiveram.

Ora, se os sofistas tiveram uma influência no campo filosófico a sua importância faz-se sentir noutros sectores. Na literatura (por exemplo em Euripides), na história (é o caso de Tucídides), na linguistica e sem dúvida no campo político-social, a sua presença é marcante.




3. SÓCRATES


3.1. O pensamento de Sócrates

Ao falar-se de Sócrates temos de defrontar a chamada questão socrática.

Esta questão consiste na abordagem dos testemunhos àcerca de Sócrates.

A questão é difícil porque os testemunhos não são coincidentes.

Ainda, em vida de Sócrates, a corrente anti-socrática conta com a comédia As Nuvens da autoria de Aristófanes. Esta comédia é demolidora para Sócrates. O filósofo é apresentado como um adepto da filosofia pré- socrática e da corrente sofística; mais ainda, ele surge na comédia de Aristófanes como um charlatão.

No século IV, logo nos primeiros anos, surge a corrente socrática, sobretudo constituída por obras dos seus discípulos.

Platão e Xenofonte escrevem, cada um, uma Apologia de Sócrates. Embora sejam ambos discípulos de Sócrates há diferenças nas duas Apologias.

A questão é complexa devido, por um lado ao facto de Sócrates nada ter escrito, e por outro, os testemunhos serem diferentes.

Houve, da parte de alguns historiadores a tentativa de conciliar os vários testemunhos. Assim, teria havido duas fases no percurso de Sócrates:

  • a primeira em que Sócrates teria sido um adepto da filosofia da Natureza e talvez, também, da corrente sofística;
  • a segunda em que Sócrates aparecia na fase retractada pelos seus discípulos.

Embora considere esta tese verosímil penso que ela não resolve as discrepâncias nas obras de Platão e de Xenofonte.

Pessoalmente, creio que a questão Socrática ainda está aberta e pouco poderemos dizer, com alguma segurança, sobre Sócrates.

*

A questão socrática levanta alguns problemas difíceis de ultrapassar, como já vimos, o que aconselha alguma prudência na exposição do pensamento de Sócrates.

Vejamos alguns aspectos que poderemos avançar com uma certa segurança.

O método utilizado por Sócrates está pelo menos próximo da erística sofística. É um método essencialmente refutativo que se aplica ao saber do seu interlocutor.

A fazer fé numa passagem da Metafísica de Aristóteles, Sócrates estaria interessado nas definições e nos termos universais. E Aristóteles vai mais longe ao afirmar que para Sócrates os universais não estavam separados das coisas, ou seja não eram independentes.

O Estagirita queria dizer também que a responsabilidade na separação dos universais como inteligíveis pertence a Platão.

Sem dúvida que o esforço de Sócrates em estabelecer a definição é um ponto filosoficamente importante.

A este ponto podemos juntar outro, atestado por Aristóteles noutra passagem da Metafísica: a indução foi utilizada por Sócrates.

Diremos agora que o tema da virtude devia ter tido um lugar de destaque na reflexão socrática. A natureza da virtude, o seu ensino, eram aspectos caros a Sócrates.

A estes temas voltaremos quando abordarmos Platão mas será pelo menos, difícil, descortinar o que pertence ao mestre e ao discípulo.




3.2. A condenação de 399

É sabido que em 399 Sócrates foi acusado de impiedade e de corromper a juventude e comparecendo perante o tribunal foi condenado à morte.

Com frequência a condenação de Sócrates é vista ou como um atentado à filosofia ou como uma questão religiosa.

Pensamos, todavia, que qualquer dos pontos de vista avançados não resolve a questão, o que significa que avançaremos com outra explicação.

Compreendemos que a indagação socrática suscitasse alguma má vontade e que a suspeita de impiedade fosse relevante na Atenas de então.

Algumas das personalidades acusadas dos males que caíram sobre Atenas durante a Guerra de Peloponeso, ou imediatamente após a capitulação, frequentaram o círculo socrático. Alcibiades, apontado como um dos responsáveis pelo desastre da expedição à Sicília, Crítias e Cármides que pertenceram ao regime sangrento que governou a Cidade após a capitulação de 404 foram alguns dos homens que conviveram com Sócrates.

Entre 404 e 399 medeia um curto espaço de tempo e convirá relembrar que em 403 a democracia foi restaurada. O regime democrático foi moderado contendo-se em fazer uma perseguição aos seus inimigos. Mas com toda a probabilidade alguns ajustes de contas teriam ocorrido.

Em 399 quando Sócrates comparece perante o tribunal estava fresca na memória a derrota e o governo dos trinta tiranos. E era muito possível que os juizes se lembrassem das ligações perigosas entre Sócrates e políticos que tinham contribuído para o descalabro de Atenas.

Por aquilo que podemos saber Sócrates não devia ser um ímpio: não negou a existência dos deuses e seria, provavelmente, um homem piedoso.

Assim consideramos que em 399 ocorreu um ajuste de contas, ou seja, a acusação de impiedade camuflou um caso político (o que já tinha acontecido com Protágoras e Anaxágoras).

Não deixa de ser significativo que no séc. IV, já depois da morte de Sócrates, tivessem surgido os ataques contra o filósofo pondo a tónica na responsabilidade da formação dos políticos a que nos referimos.

Diremos, por fim, que o nosso ponto de vista não põe em causa o regime democrático de Atenas. Este funcionou, pelo menos, de forma razoável e os acidentes de percurso não puseram em causa o seu valor.



3.3. A chamada revolução socrática.

Ainda hoje é vulgar ler-se que Sócrates inaugurou um novo ciclo da filosofia grega. Tal significa que a um período cosmológico se seguia o período antropológico inaugurado por Sócrates: estávamos perante uma autêntica revolução.

Por aquilo que sabemos de Sócrates, este foi sem dúvida uma figura relevante na segunda metade do séc. V. Todavia este período é marcado por outros acontecimentos importantes.

Em primeiro lugar a medicina tornou-se um acontecimento marcante no período referido. A sua influência em Platão, por exemplo, é explicita e importante.

A medicina, pelo seu objecto, debruça-se sobre o que por vezes se chama a natureza humana. O que é o homem e o interesse por ele são preocupações do Corpo Hipocrático. Assim a medicina grega fornece uma contribuição importante para o domínio da antropologia.

Qualquer que seja o valor que se atribua ao movimento sofístico será difícil sustentar que ele tenha uma pequena influência na Cultura Grega da segunda metade do séc. V.

Os sofistas, ao que nos parece, tiveram um papel relevante no campo que agora nos interessa considerar.

A preocupação pela paideia é clara nos sofistas. A utilização de algumas técnicas, como a erística e a retórica, procuravam a valorização dos seus discípulos. Era, portanto, o aparecimento de uma educação de grau superior.

Se juntarmos ao que já dissemos o interesse pela linguagem, o tema do conhecimento e a ética deparamos com um vasto campo no qual o homem está no centro.

O que queremos dizer é que Sócrates não foi o único personagem a operar uma mudança na segunda metade do séc. V. Os médicos do Corpo Hipocrático, os sofistas e Sócrates, são todos eles os protagonistas da viragem a que assistimos no período que menciona-mos, o que nos leva a considerar que na segunda metade do séc. V ocorreu uma revolução cultural.

Para concluir diremos que não há uma revolução socrática mas sim uma revolução em que outros tiveram uma importância que não podemos menosprezar. O que afirmamos não diminui o valor da filosofia de Sócrates mas coloca-o no contexto em que viveu.




4. Os Socráticos Menores



4.1. Introdução

Os socráticos menores são discípulos de Sócrates; Platão, também discípulo será o socrático maior.

Esta designação, que terá apenas uma utilidade pedagógica, não é muito feliz na medida em que contém um juízo de valor. Não pondo em dúvida a envergadura de Platão terá de se fazer um balanço da actividade destes homens. Não caberá no âmbito destes Apontamentos proceder a essa tarefa propondo-nos apenas traçar algumas linhas das escolas que apresentam Sócrates como figura tutelar.

O estudo destas escolas é difícil: mais uma vez, verificamos a perda de uma produção considerável. A reconstituição tem de realizar-se a partir de fragmentos e de testemunhos.

Trataremos dos primórdios das escolas cínica, cirenaica e megárica. Como tentaremos mostrar elas auxiliam a compreensão do platonismo e por isso é desejável o seu conhecimento mesmo não muito desenvolvido.




4.2. A escola cínica

O fundador da escola é Antístenes. Pertenceu ao círculo socrático mas, antes, foi discípulo dos sofistas, talvez de Górgias.

A escola cínica tem aspectos bem marcados. Os seus membros levam uma vida ascética: vestem-se da forma mais simples e alimentam-se do que lhes é dado. Não possuem bens e são hostis aos estatutos económico e social: como já foi notado esta escola faz lembrar uma ordem mendicante.

A escola cínica preocupa-se com a postura perante a vida; assim não é para admirar que coloque a virtude em primeiro lugar e a ciência em segundo.

A figura tutelar dos cínicos é o herói mítico Herakles. É o exemplo, mais claro, dos trabalhos que são necessários para atingir a virtude.

A virtude do sábio cínico consiste na independência face aos outros, às coisas e às paixões: o seu desígnio é a autonomia.

Quanto ao tema do conhecimento Antístenes considera que cada coisa tem uma essência: para este filósofo não há essências universais mas sim individuais que são os nomes pelos quais designamos as coisas.

Para Antístenes não há definições das coisas; quanto muito, podemos fazer comparações para clarificar o que cada coisa é.

Importante sob o ponto de vista filosófico é a tese do fundador da escola quanto à predicação: esta não é possível, pois não existe comunicação entre as essências. Homem e música são essências singulares e por isso só podemos dizer que o homem é homem e que o músico é músico.

Anotemos, ainda, a posição de Antístenes quanto ao discurso: para ele não há discurso verdadeiro e discurso falso. Há um único discurso pois quando se fala sobre uma determinada coisa há apenas um discurso e por isso não se pode falar em falsidade.

A presença de Protágoras é nítida, ao que parece, o que permite ver a influência sofística nos primórdios da escola.




4.3. A escola cirenaica

Aristipo, originário de Cirene, colónia grega do Norte de África, foi discípulo de Sócrates e recebeu, igualmente, a influência sofística.

Fundou a sua escola na Cidade natal.

Os cirenaicos consideram como fundamental a acção, a vida prática, em detrimento da teoria. Todavia, como veremos, a filosofia do conhecimento cirenaica é importante.

Esta escola defende que a sensação constitui o conhecimento. O que nós temos são sensações e estas não podem ser consideradas verdadeiras ou falsas. Temos acesso às sensações e elas são verdadeiras na medida que constituem o único critério: quaisquer que sejam as condições, quaisquer que sejam as diferenças, e a sensação é verdadeira. Isto é, se alguém diz que tem a sensação do branco e outro do azul referente ao que chamamos o mesmo objecto qualquer delas é verdadeira porque é individualmente que temos acesso a elas.

Segundo os cirenaicos não podemos dizer o que são os objectos. O que podemos dizer é que temos a sensação do branco ou do doce mas não podemos afirmar que este objecto é branco e aquele doce. Assim, o que chamamos realidade é uma incógnita, é algo de incognoscivel.

A ética da escola decorre deste sensismo. Deverá seguir-se as sensações e estas podem dividir-se em três categorias: as que provocam a dor, as que são neutras e as que oferecem o prazer.

O que é natural é que o sábio siga as sensações que lhe dão prazer. Desta forma, estamos perante uma ética hedonista.

Será importante referir que nesta concepção é sábio aquele que é autónomo. Afastando-se da dor, procurando tranquilamente a prazer, o sábio não deve ser dominado pela paixão e pelos desejos. É próprio do sábio usufruir do prazer presente sem se preocupar com o passado e o futuro. A autonomia, a independência constituem o traço fundamental da sabedoria.

É importante verificar na escola cirenaica a presença da sofística, em especial de Protágoras, no respeitante ao temas do conhecimento.

Segundo pensamos, e tentaremos mostrá-lo mais tarde, esta situação explicará, pelo menos, em parte, a critica de Platão ao sofista Protágoras.




4.4. A escola megárica

A escola foi fundada por Euclides de Mégara (não confundir com o geometra Euclides), possivelmente antes da morte de Sócrates.

Após a morte de Sócrates vários discípulos foram para Mégara, para junto de Euclides que, como já disse devia ter aberto a sua escola há já alguns anos.

Platão, cerca de dez anos, mais novo do que Euclides estabelece com este uma longa e sólida amizade.

A escola de Mégara, das três que estamos a examinar era aquela que mais próxima da filosofia platónica; não obstante este facto Platão irá criticar alguns aspectos da doutrina dos megáricos.

Apresentarei, brevemente, alguns pontos da filosofia megárica:

  1. o conceito de Bem é a entidade mais elevada para a escola megárica. Ele é designado por nomes diversos mas o Bem é uno;
  2. concebem uma pluralidade de essência que são isoladas umas das outras. O Bem participa de todas as essências;
  3. se as essências não se articulam entre si não é possível a predicação;
  4. o sensível é o Não-Ser. Nada nasce nem perece assim como não existe o movimento;
  5. para defenderem a sua doutrina apresentam um conjunto de paradoxos utilizando a metodologia de Zenão de Eleia.

Para findar esta breve abordagem direi que a escola de Mégara cruza as influências de Sócrates e da filosofia eleata (é possível que Euclides tivesse sido um eleata, na sua juventude).


©Álvaro dos Penedos


"Sofistas, Socráticos e Socráticos Menores" foi extraído de Os Dias de Deméter


Obs.: este texto também pode ser encontrado no site da A.F.A. - Associação Filosofia Antiga sob Conteúdos/ Iniciação à Filosofia Antiga ou directamente através deste link.

domingo, 9 de setembro de 2007

Solicita-se aos professores de Filosofia Antiga das Universidades portuguesas o envio dos respectivos programas, os quais serão publicados na íntegra na nosso blog.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Apontamentos de Filosofia Antiga


Nota prévia: este texto destina-se essencialmente aos estudantes que se iniciam no estudo da Filosofia Antiga.


Segunda Parte


Os Filósofos Pré-Socráticos


1. Os milésios


1.1. Tales

Tales, natural de Mileto, nascido no século VII mas cuja actividade se deve processar essencialmente no século VI, não deve ter deixado qualquer obra escrita.

Assim não é para estranhar que pouco conheçamos da sua vida e pensamento.

O tema da filosofia de Tales é a physis. A physis é a substância primordial, a génese das coisas existentes.

O problema colocado por Tales não é novo: é a questão das origens. O filósofo quer saber qual é a substância que vai originar o universo.

Tales vai responder que a origem das coisas é a água. Com isto quer dizer que é a partir da água que o universo, com tudo o que ele encerra, se vai formar.

É de presumir que Tales tivesse traçado a evolução do universo: simplesmente não temos informação que a documente.

O que sabemos, ainda, é que Tales afirmou que a Terra é um disco achatado que está a boiar na água. Podemos destacar os seguintes pontos:

  • Tales preocupa-se com a forma da Terra;
  • A Terra tem um suporte, o que lembra as raízes que prendem a Terra ao fundo, que podemos ver nas cosmogonias;
  • Quando a água, suporte da Terra, entra em agitação a Terra estremece – é o terramoto.

O que podemos descortinar é que Tales se interessa com a forma da Terra e pretende dar uma explicação de fenómenos que são importantes para a Humanidade.

Outra tese de Tales diz que tudo está cheio de deuses. É uma afirmação um pouco misteriosa para nós.

Sabemos que Tales fez pequenas experiências com o âmbar e o imane; viu assim que havia corpos que atraíam outros corpos (é possível que estas experiências sejam anteriores ao filósofo).

É provável que com estes dados Tales chegasse à seguinte conclusão: há forças nos objectos e essas forças são deuses. Se assim é podemos concluir o seguinte:

  • Os deuses estão à nossa volta, ou seja, estão em todo o lado;
  • Esta concepção insere-se no quadro do politeísmo grego mas há inovação na medida em que os deuses estão mais próximos do Homem.

Tales ficou famoso por outras actividades. Interessou-se pela matemática mas não se conhecem os seus progressos.

Faz a previsão de um eclipse em 585 mas hoje pensa-se que Tales podia prever a data mas não o lugar onde ele era visível. É muito provável que Tales tivesse tido acesso às tábuas astronómicas dos babilónios, o que demonstra a sua grande curiosidade.

Terminamos com a interessante explicação das cheias do Nilo. Tales afirmou que os ventos etésios, em determinada altura do ano, sopram em direcção à embocadura do Nilo dificultando a entrada das águas do rio no Mediterrâneo: sendo assim o rio transbordaria para as suas margens, provocando as inundações.

Hoje sabemos que a explicação de Tales não é exacta; o que é exacto é o espírito da explicação dada pelo filósofo.



1.2. Anaximandro

Anaximandro, natural de Mileto, ficou famoso na Antiguidade por ter desenhado um mapa. Foi um companheiro de Tales, mais jovem do que este.

Anaximandro escreveu um livro, em prosa e cujo título é Acerca da Natureza. Tudo isto merece algumas considerações.

O título não é de completa confiança: é possível que o título original se perdesse e mais tarde se atribuísse esta designação genérica às obras dos pré-socráticos. Mas é interessante notar-se que, mesmo que o título seja posterior, ele corresponde ao domínio tratado pelo filósofo.

É relevante o facto de Anaximandro ter escrito um livro em prosa.

Em primeiro lugar o pensamento de Anaximandro torna-se público, isto é, pode ser abordado por quem tenha curiosidade para tal. É uma atitude que acompanha, quase sempre, a Filosofia.

Em segundo o facto de o livro ser em prosa mostra uma audácia da parte de Anaximandro. O universo cultural é dominado pela poesia no tempo do filósofo.

Escrever em prosa era abandonar os padrões mais elevados e, em contrapartida, Anaximandro conferia à prosa a dignidade de poder constituir o veículo do saber.

Vejamos agora a doutrina de Anaximandro.

O filósofo debruçou-se sobre o mesmo problema do seu antecessor: o que é a physis? E Anaximandro dá a resposta: a substância primordial é o apeiron.

O termo apeiron aparece na linguagem vulgar grega: nela significa algo sem limites, inacabado e por isso não é perfeito ou belo. Porém, para Anaximandro o termo embora conserve o sentido de qualquer coisa sem limites tem uma dignidade que não possui na linguagem vulgar.

A substância primordial para Anaximandro é algo sem limites e indeterminada. Esta última característica é fundamental para se compreender o que é o apeiron. Este não é uma substância determinada como a água, por exemplo, mas também não é uma mistura de substâncias. Se fosse uma substância determinada destruiria todas as outras, na medida em que a physis é infinita.

É importante assinalar que a substância primordial é incriada e imperecível: temos aqui patente a importância e a dignidade do apeiron que existe desde sempre e existirá para sempre.

Indiquemos igualmente a identificação da Divindade com a substância primordial; a este respeito façamos as seguintes observações:

  • as características do apeiron são tão importantes que são dignas para aplicar à Divindade;
  • se a Divindade é a substância primordial não é antropomórfica o que mostra a inovação introduzida por Anaximandro.

O filósofo está interessado na génese do Universo e sobre este tema temos alguma documentação, embora escassa.

Para Anaximandro, em determinada altura, separou-se do apeiron uma massa capaz de produzir o quente e o frio; em seguida a parte fria ocupa o centro e a quente vai envolvê-la.

Ora, é esta situação que vai provocando a secagem, progressiva, da parte fria e a evaporação vai ter como resultado a fragmentação da esfera de fogo.

A arquitectura do universo de Anaximandro é a seguinte:

  • a Terra tem uma forma cilíndrica;
  • a Terra está imóvel, no centro, sem necessitar de qualquer suporte porque está equidistante de todos os outros pontos;
  • os astros são constituídos por rodas ou anéis (das estrelas, da Lua e do Sol) cheias de fogo, envoltas por uma película opaca e com aberturas pelas quais sai a luz.

A maior ou menor obstrução dos orifícios explica os eclipses e as fases da Lua. Esta explicação é relevante pois mostra que Anaximandro dá resposta a fenómenos particulares inserindo-os numa teoria geral.

No que diz respeito ao tema das origens façamos, ainda referência à dos seres vivos. Segundo Anaximandro os seres vivos nasceram da lama e nos primeiros tempos, devido à escassez de terra firme, eram peixes ou semelhantes aos peixes.

O homem foi idêntico aos outros seres e em determinada altura veio para terra firme e perdeu a sua carapaça espinhosa. Podemos fazer as seguintes observações:

  • os seres vivos não tiveram sempre o mesmo aspecto, atravessaram uma certa evolução;
  • há uma adequação entre os seres vivos e o ambiente.

Deixemos para o fim o fragmento de Anaximandro, as primeiras palavras de um filósofo que chegaram até nós. Vamos transcrevê-lo no contexto do comentador (Simplício) que o conservou:


"O ilimitado é a origem dos seres. E a fonte da geração das coisas existentes é aquela na qual a destruição também acontece [segundo a necessidade porquanto pagam castigo e retribuição uns aos outros, pela sua injustiça, de acordo com o decreto do tempo] como ele se exprime, nestes termos um tanto poéticos." (Trad. M. H. Rocha Pereira).


As palavras de Anaximandro estão entre parênteses rectos.

Numa primeira leitura e seguindo a letra do fragmento podemos concluir que se trata de um quadro ético-jurídico: termos tais como castigo, injustiça, decreto do tempo parecem indiciar esta interpretação.

Todavia, podemos perguntar se fará sentido que coisas inanimadas, por exemplo, cometam qualquer injustiça e por isso tenham de ser castigadas. É provável que Anaximandro utilizasse termos poéticos, como diz Simplício, para descrever um determinado quadro. O filósofo poderia querer dizer que a noite para surgir necessitava que o dia desaparecesse assim como a uma estação sucedia outra.

O que queremos afirmar é que as coisas actuais não permitem o aparecimento de outras e é necessário que essas desapareçam para que outras venham à existência. E é também muito possível que este universo, segundo Anaximandro, um dia seja destruído para outro se formar.

Assinalemos, por fim, que para o milésio o universo é regido por normas (os decretos do tempo); é um universo regido pela necessidade e não pelo acaso.



1.3. Anaximenes

O terceiro milésio, Anaximenes, escreveu um livro em prosa, Acerca da Natureza, num estilo simples, segundo testemunho que chegou até nós.

O tema principal para este pensador é o mesmo dos seus antecessores: a physis. A substância primordial é a bruma para Anaximenes.

O que se pode perguntar agora é o seguinte: conhecendo Anaximenes as críticas do seu antecessor às substâncias determinadas porque é que o terceiro milésio escolheu a bruma? É aqui que entra uma explicação francamente engenhosa.

Segundo Anaximenes a substância primordial transforma-se nas várias substâncias que vão formar as coisas através do processo de rarefacção e de condensação. Assim, por exemplo, a bruma rarefazendo-se ao máximo transforma-se em fogo e na condensação máxima dá origem as pedras.

Estamos perante uma resposta subtil a um problema difícil, ou seja, a passagem da substância primordial (neste caso determinada) às outras substâncias.

Anotemos, ainda, que a bruma para Anaximenes é infinita e é a divindade suprema. São dois aspectos que vêm de Anaximandro; acentuemos que a noção de infinito pertence ao património filosófico milésio.

Segundo Anaximenes o universo deve a sua génese ao processo de rarefacção e condensação. Assim, surgiu a Terra, achatada, assente na bruma, e os astros que circulam em redor da Terra são corpos ígneos.

O fragmento que chegou até nós, atribuído a Anaximenes não merece grande confiança devido às interpolações que sofreu.

Diremos apenas que há uma analogia entre a alma humana, que é bruma, e a bruma que cerca (sustenta) o mundo. Não é para espantar que a alma seja constituída por bruma (possivelmente no seu estado puro) já que esta está presente em todas as coisas. A alma dá o movimento ao corpo humano e a bruma sustenta o universo.



PITÁGORAS E OS PITAGÓRICOS


  • Pitágoras de Samos

Com Pitágoras de Samos a filosofia muda de quadrante geográfico. Este emigrante instala-se em Crotona, na Grande Grécia, onde funda uma escola.

A escola pitagórica é a primeira a ser fundada na Grécia. Vários testemunhos indicam que se tratava de uma escola relativamente fechada.

A índole da escola pitagórica é religiosa e de investigação. A purificação da alma e o seu destino são preocupações fundamentais mas a sua contribuição filosófica é relevante e os pitagóricos ficarão célebres pelos seus estudos de matemática.

A escola desenvolve-se, nestas vertentes mas há dois aspectos que ainda devemos mencionar:

  • Pitágoras, não obstante ter sido uma figura histórica, aparece, cedo, rodeado pelo maravilhoso.
  • Este pensador aparece com traços xamanísticos o que mostra claramente a presença do antigo corpo de saber no campo filosófico;
  • há uma ligação entre o pitagorismo e os mistérios órficos. Durante bastante tempo afirmou-se que o orfismo influenciou o pitagorismo mas hoje coloca-se a hipótese de ter sido o pitagorismo a influenciar o orfismo.

A escola pitagórica chegou a dominar, sob o ponto de vista político, a cidade de Crotona. Em determinada altura a facção democrática da Cidade revoltou-se e massacrou os pitagóricos.

Foram poucos os que escaparam; Pitágoras foi um deles e refugiou-se em Metaponto, onde veio a falecer.

Conhecer o que pertenceu a Pitágoras e às várias gerações dos seus discípulos é tarefa muito difícil.

Essencialmente duas razões concorrem para tal facto:

  • por uma questão de respeito os pitagóricos atribuíram teorias posteriores ao próprio fundador;
  • uma literatura abundante sobre a Escola é muito posterior a Pitágoras e aos seus primeiros discípulos.

A Pitágoras poder-se-á atribuir três teses que estão ligadas entre si: (a) imortalidade da alma, (b) transmigração da alma e (c) o parentesco dos seres vivos.

A afirmação da imortalidade da alma é importante. A tradição religiosa não tinha sido muito clara quanto a este ponto: a alma sobrevivia à morte do corpo mas não se podia garantir a sua imortalidade.

A transmigração das almas constitui uma inovação a salientar. Para Pitágoras se a alma não fosse pura durante a vida terrena, após a morte do corpo, ela teria de reencarnar noutros corpos ou humanos ou de outros animais, até atingir a purificação.

Compreende-se agora o sentido da terceira tese de Pitágoras. Se a alma humana pode estar presente nos corpos de vários animais isso faz com que eles sejam parentes do homem.

E assim não é para espantar a proibição de matar e consumir a carne dos animais.

*

Como já dissemos, é difícil discernir o que pertence às várias gerações dos pitagóricos. A partir de agora, a nossa exposição abarca um período que vai, praticamente, até aos finais do século V.

Os pitagóricos defendem a existência de dois princípios ou substâncias opostas o limite e o ilimitado a partir dos quais o universo virá à existência.

O limite desenvolveu-se como uma semente que se desenvolve e, ao crescer foi penetrado pelo ilimitado o qual estava no seu exterior e que o fragmentou em corpúsculos.

O universo é constituído por um fogo central (que ilumina o Sol e a Lua) e por nove astros visíveis aos quais os pitagóricos juntaram a anti-terra (astro invisível) para perfazer o número dez que para eles era o número perfeito.

É possível que esta cosmologia remonte ao tempo de Filolau. Aspecto curioso é a chamada harmonia das esferas que consistia na música provocada pelo movimento dos astros. A base desta teoria era a seguinte: se um corpo é lançado provoca um ruído e se não ouvimos a música dos astros é porque estamos, desde crianças, habituados a ela.

*

Outras teorias pitagóricas ficaram famosas. Vejamos em primeiro lugar o sentido da expressão "as coisas são números". Muito rapidamente, diremos que ainda não estamos na matematização do universo. É mais provável que os pitagóricos quisessem dizer que as coisas são constituídas por corpúsculos.

*

A tábua dos opostos é ainda hoje tema de discussão. Vejamos primeiro os seus elementos:


LIMITEILIMITADO
ImparPar
UnoMúltiplo
DireitoEsquerdo
MachoFêmea
ImóvelMóvel
RectoCurvo
LuzTrevas
BomMau
QuadradoRectangular


Façamos algumas considerações. Em primeiro lugar trata-se de uma tábua com dez pares de opostos e em segundo o primeiro par é constituído pelos dois princípios ou substâncias fundamentais para os pitagóricos (Limite e Ilimitado).

Qual o sentido desta tábua? Esta é a questão mais difícil. Em cada coluna o termo fundamental é o primeiro sendo os nove restantes variações do primeiro. A coluna do Limite é positiva, a do Ilimitado, negativa.

É muito possível que os pitagóricos pretendessem descrever a realidade e mostrar os seus diferentes aspectos que, todavia, serão modalidades do primeiro par de opostos.

*

Como já dissemos o tema da alma ocupou um lugar de destaque nas preocupações dos pitagóricos. Não é para admirar que se debruçassem sobre a natureza da alma. Uma teoria considerava que a alma era um conjunto de partículas; possivelmente é a primeira concepção defendida pela Escola.

Vamos encontrar outra teoria, mais elaborada, a qual deve ser posterior. A alma surge como o princípio da harmonia do corpo.

A força e o prestígio da Escola pitagórica ultrapassou o século V devido às suas concepções filosóficas. A matemática, da qual foram grandes cultores trouxe-lhes, todavia, grandes problemas atestados na polémica entre eleatas e pitagóricos.



  • Xenófanes de Cólofon

Pitágoras de Samos e Xenófanes de Cólofon foram dois emigrantes que transportaram a filosofia da Ásia Menor para a Grande Grécia.

Xenófanes compôs poesias satíricas, os siloi, os quais contêm o seu pensamento filosófico. Isto mostra que os filósofos, sob o ponto de vista formal, tanto empregam a prosa como a poesia.

Xenófanes ficou famoso pelas críticas à religião tradicional e pela sua concepção de Divindade.

O filósofo atacou duramente os grandes poetas da Grécia, Homero e Hesíodo, como responsáveis pela imagem degradada dos deuses: ladrões, adúlteros e mentirosos (cfr. frag. B11).

O antropomorfismo dos deuses já criticado no frag. B11 é reforçado em B14 (roupagem e corpo, por exemplo, idênticos aos homens).

Os frags. B16 e B15 ampliam e inovam em relação aos frags. citados anteriormente.

O frag. B 16 chama a atenção para o facto de os Etíopes e os Trácios fazerem os deuses à sua imagem.

O que é importante anotar é que para Xenófanes os deuses antropomórficos não são universais. Teremos, ainda de falar, um pouco mais à frente, da noção de universal.

Vamos, agora, transcrever o frag. B15:


"Mas se os bois [os cavalo] ou os leões tivessem mãos ou pudessem pintar ou esculpir como os homens,
os cavalos desenhariam imagens equinas dos deuses,
e os bois, bovinas,
e pintariam a forma e o corpo dos deuses como
eles o têm
de modo que cada [espécie] teria o seu aspecto físico."

(trad. M. H. Rocha Pereira)


Este fragmento é para nós importante por duas razões:

  • é a nova crítica, através do ridículo, ao antropomorfismo;
  • mostra uma preocupação metodológica, na medida em que estamos perante uma argumentação por absurdo.

A filosofia, não obstante a sua pequena tradição, travava, com Xenófanes, uma das suas grandes batalhas: a apresentação de uma nova paideia, que se contrapunha à tradicional, cujos pilares eram Homero e Hesiodo.

Xenófanes não ficou pela crítica ao antropomorfismo: apresentou, também, a sua concepção de divindade.

Assim, fala de um deus com o máximo poder e que não possui traços antropomórficos (frag. B23). Este deus está imóvel e não necessita de fazer qualquer esforço para dominar todas as coisas (frag. B 26+25). O último aspecto é reforçado pelo frag. B24: vê tudo, ouve tudo, pensa tudo.

Encontramos aqui uma preocupação pela teologia natural (aspecto da filosofia pré-socrática posto em relevo por W. Jaeger) que já estava presente em Tales de Mileto.

Façamos ainda duas observações:

  • o deus de Xenófanes tem um carácter universal, isto é, pode ser encarado sob o mesmo aspecto por quaisquer homens (pertençam ou não a sociedades diferentes).
  • há uma questão ainda em aberto acerca da possível posição monoteísta de Xenófanes, embora, eu pense que o filósofo se mova, ainda, num quadro politeísta.

*

O tema do conhecimento é extremamente importante para Xenófanes. Para ele o homem não pode atingir a verdade, só tem acesso à opinião. E com grande subtileza afirma que se alguém dissesse a verdade não saberia que a tinha dito: o filósofo, defenderia, possivelmente, que tal sucedia porque não existe um critério da verdade (para estes aspectos veja-se o frag. B34).

No frag. B18 Xenófanes afirma que os deuses não deram a conhecer todas as coisas nos primeiros tempos da Humanidade; o homem ao longo dos tempos através da indagação descobre o que é melhor.

A teoria do conhecimento de Xenófanes apresenta uma série de aspectos que deveremos por em relevo:

  • o filósofo coloca a dicotomia verdade-opinião considerando que o homem só alcança a última. È um ponto importante porque abre um debate na filosofia grega que terá de levar em linha de conta este problema;
  • Xenófanes defende o progresso da Humanidade opondo-se assim ao mito da Idade de Ouro, o qual afirmava que a primeira sociedade tinha vivido numa autêntica beatitude. Em contrapartida o filósofo considera que o esforço consegue obter o progresso. Isto significa que o homem não está em regressão mas sim em marcha para aquilo que é melhor. Trata-se de outro tema que será debatido por filósofos posteriores.

O que disse, segundo espero, mostra a grande envergadura de Xenófanes, o qual não ignorou a cosmologia, tema que não tratei nestas linhas.

Nota Adicional

No capítulo dedicado a Xenófanes surge uma numeração atribuída aos fragmentos do filósofo. Esta numeração foi estabelecida por Diels na sua grande obra onde compilou as passagens referentes aos pré-socráticos, obra esta revista por Kranz.

Os fragmentos atribuídos aos filósofos podem ser apresentados da seguinte maneira:

  • pela simples numeração, por exemplo, Xenófanes, frag. 34;
  • pela numeração e secção, por exemplo, Xenófanes, frag. B34;
  • pela numeração e iniciais de Diels – Kranz, por exemplo, Xenófanes, frag. 34 D-K.

Creio que o mais simples é numerar os fragmentos ou indicar também a secção. Parte-se do princípio de que a numeração é a estabelecida por Diels – Kranz.

Segundo a obra de Diels-Kranz são apresentadas três secções: A- passagens relativas ao filósofo; B- fragmentos da sua obra; C- passagens duvidosas.

A numeração que utilizamos (Diels-Kranz) permite ao leitor, com facilidade, verificar os fragmentos assim como as traduções das quais são passíveis.



  • Heraclito de Éfeso

Com Heraclito e Parménides a filosofia pré-socrática atinge o seu auge. Ambos os pensadores têm a sua actividade em pleno século V e a sua influência vai ser nítida.

Heraclito, autor de um Acerca da Natureza, volta à prosa mas esta é oracular, próxima dos apotegmas, o que torna a filosofia heracliteana de difícil compreensão.

Quanto à posição de Heraclito gostaríamos de focar três pontos preliminares:

  • há um ataque aos grandes poetas e a alguns pensadores (Pitágoras e Xenófanes). Se a crítica a Homero e a Hesíodo não surpreende porque já tinha sido feita por Xenófanes o ataque a filósofos merece uma rápida consideração. A filosofia já tem os contornos do que vai ser a sua natureza: é uma reflexão independente, os seus cultores são solitários em embates com os seus colegas, nunca formando propriamente uma comunidade;
  • o interesse e a defesa por uma religião depurada é patente em Heraclito (cfr. frag. B5). O filósofo inscreve-se numa linha do pensamento grego cuja preocupação é a moralidade, portanto a dignidade da religião;
  • tema caro a Heraclito é a diferença entre o homem e os deuses. O filósofo reata aqui um tema contido no antigo corpo de saber. Para Heraclito há um abismo entre a sabedoria do deus e a do homem: é a concepção do saber humano como algo que pouco vale. É, no fundo, a consciência de que a razão tem limites estreitos e que para além dela se abre a imensidão do desconhecido.

A filosofia de Heraclito já era difícil de interpretar na Antiguidade quando o seu livro ainda estava completo; os fragmentos que chegaram até nós tornam a tarefa mais árdua. O nosso ponto de partida vai ser a noção de Logos (frags. B 1,B2 e B50).

É conhecida a dificuldade em traduzir a palavra grega logos. Por isso vamos tentar apresentar os traços mais relevantes desta noção em Heraclito:

  • o homem vulgar desconhece o Logos; existe, assim, uma clivagem entre os homens comuns e o filósofo;
  • todas as coisas acontecem segundo o Logos: este orienta e dirige tudo quanto existe;

  • o Logos é algo de comum
  • ;
  • por um lado o Logos é o que é comum a todas as coisas, por outro todas as coisas formam uma unidade;
  • o Logos não é a palavra do filósofo mas algo que lhe é independente e exterior.

Segundo penso para Heraclito o Logos é a estrutura das coisas existentes e o que permite explicitá-las, fazendo, igualmente a sua unidade.

É minha opinião que o Logos se identifica com a Divindade e o Fogo, outras duas noções fundamentais no pensamento heracliteano.

A Divindade é o uno, a sabedoria única (cfr. frag. B32); ora, a ênfase posta na unidade liga-se, ao que nos parece, ao Logos que, como vimos, é algo de comum.

Quanto ao Fogo aparece como algo de eterno, que se acende e se extingue com medida, sendo ele que constitui a ordem do mundo (cfr. frag. B30).

Como podemos ver este Fogo tem uma norma interna, é inteligente, passe a expressão, o que permite, segundo penso, identificar Logos, Divindade e Fogo.

O que há de inovador nesta perspectiva?

A substância primordial dos milésios torna-se mais complexa em Heraclito; neste pensador o Fogo surge com a função tradicional da physis e a sua identificação com a Divindade não é nova.

A novidade constitui no facto de Heraclito analisar mais profundamente esta noção, mostrando que ela possui várias facetas o que a torna mais complexa, como já dissemos.

Até este momento acentuei a tónica da unidade numa filosofia mais conhecida pela noção de fluir constante.

Heraclito ficou célebre pela luta dos contrários, pela mudança que se vai operando, sem cessar.

Ora, ao que me parece, o chamado fluir constante não se opõe à concepção de unidade que apresentei anteriormente.

O que quero dizer é que esta luta de contrários, este fluir, é superficial, ou seja, o substrato das coisas não é afectada.

Heraclito conjuga a unidade com o movimento: o que é importante é verificar que o essencial é a unidade, a qual não é posta em causa.

Embora Heraclito seja mais conhecido pelo filósofo do Logos ou do fluir constante todas as suas reflexões se fazem no âmbito da cosmologia. Ao que me parece é a origem e a estrutura do Universo assim como a forma de que se reveste que constitui a base da sua filosofia (embora no campo estritamente cosmológico Heraclito não seja muito original).

Por fim façamos uma referência ao tema da alma. O Efésio considera que a alma é fogo, devendo estar ligada ao Fogo universal. As almas, e isso deve ser o mais comum, podem transformar-se em água, o que constitui a sua morte. Por seu lado as almas virtuosas (porque são secas) sobrevivem à morte do corpo (veja-se os frags. B25, B36, B118).

O facto de Heraclito se ter debruçado sobre a questão da alma mostra-nos o seguinte:

  • é um tema importante a partir de Pitágoras;
  • Heraclito ao defender que nem todas as almas são imortais mostra claramente as divergências e a ambiguidade deste tema desde os poemas homéricos.

A exposição que fizemos teve de deixar de lado alguns aspectos da filosofia de Heraclito em que ele mostra toda a sua pujança e que nos ajuda a compreender a influência que vai ter ao longo da Filosofia Grega.



  • Parménides de Eleia

Nota Introdutória

Na exposição do pensamento de Parménides de Eleia seguimos a tradução de M. H. Rocha Pereira (Hélade). Tal significa que as passagens traduzidas do Poema de Parménides se devem à Autora citada.

Aproveito esta Nota para chamar a atenção do leitor para a diversidade de traduções do texto de Parménides. A dificuldade de uma tradução, relativamente consensual, pode levar-nos a interpretações diversificadas da doutrina do Eleata.

*

Com Parménides voltamos de novo ao quadrante ocidental da Hélade. O filósofo é natural da Eleia, situada nesse vasto espaço que é a Grande Grécia.

Na sua juventude foi discípulo de um pitagórico e perto da sua maturidade escreveu um poema que contém a sua doutrina filosófica.

O poema pode ser dividido em três partes: prelúdio, via da verdade e via da opinião. Façamos algumas considerações sobre a forma como se exprime Parménides:

  • a forma pela qual os pré-socráticos se exprimem é diferenciada: uns escrevem em prosa, outros em verso. O facto de Parménides escrever em verso mostra o prestígio de que gozava a poesia;
  • Parménides coloca as suas palavras na boca de uma deusa. A interpretação deste facto é difícil e controvertida.
  • Penso que o filósofo quis dar o máximo de dignidade à sua doutrina: assim, surge o discurso proferido pela deusa, para mostrar que a sua filosofia podia ser expressa por uma divindade. É um sentimento de grande religiosidade que anima uma parte dos pré-socráticos.

Vejamos, agora, alguns aspectos do Poema de Parménides.

O prelúdio tem um interesse que não é meramente formal. Ele apresenta uma viagem, a viagem espiritual de Parménides que tendo como guias as filhas do Sol passa por uma encruzilhada onde se encontram os portões do caminho da Noite e do Dia (frag. 1 v. 11). O final da viagem é a mansão da Divindade que em determinada altura lhe diz o seguinte:

"...Força é pois que saibas tudo:
O ânimo inabalável da rotunda Verdade
e a opinião dos mortais, em que não há
confiança verdadeira
No entanto aprenderás isso também, como
as aparências
deviam ser de um modo aceitável, tudo passando
através de todas as coisas."

(frag. B 1, vv. 28-32)


Tentemos aclarar alguns pontos:

  • a viagem descrita no prelúdio faz-nos lembrar as deambulações da alma de um xamane;
  • o prelúdio mostra claramente a ligação com o mais antigo corpo de saber;
  • na passagem transcrita podemos ver que o filósofo deve possuir não só o conhecimento da verdade mas também a opinião dos mortais. Teremos de ver mais tarde porque é que Parménides não se pode contentar só com o conhecimento da verdade;
  • os vv. 28-32 do frag. B1 constituem, na nossa opinião uma das chaves para a interpretação global do Poema, como tentaremos mostrar.

Ainda no prelúdio são indicadas as duas vias que vão ser objecto dos dois discursos da Deusa. Uma via afirma a existência de o que é e a não existência de o que não é (cfr. frag. B2).

Podemos, desde já, fazer duas observações:

  • os termos o que é e o que não é podem ser traduzidos, respectivamente, por ser e não-ser. São estas duas traduções que vamos utilizar;
  • Parménides, pela boca da Deusa, irá afirmar que a primeira via é a verdadeira e a segunda deverá ser afastada porque o não-ser não pode ser conhecido nem declarado.

A via da verdade ocupa o frag. B4 ao v.49 do frag. B8. O frag. B6 coloca um problema de interpretação, ainda hoje, largamente controvertido. Depois de ter falado dos dois caminhos Parménides pretende afastar o seu leitor


"...daquele também, no qual vagueiam os mortais que nada sabem, homens de duas faces. Pois a incapacidade lhes dirige no peito a mente errante. E eles são levados, surdos e cegos a um tempo, estupefactos, multidão sem discernimento que julgam que ser e não ser ora valem o mesmo, ora não valem..." (frag. B6, vv. 4-9).


Tem-se pretendido ver nestes versos um terceiro caminho sendo Heraclito o alvo do filósofo de Eleia.

Todavia as expressões homens de duas faces, surdos e cegos, multidão não parecem dirigir-se a um filósofo, relativamente solitário, como Heraclito. É mais provável que seja uma escola ou circulo o alvo de Parménides. A expressão homens de duas faces pode aplicar-se aos pitagóricos defensores do par Limite-Ilimitado.

O poema de Parménides marca a ruptura com a escola pitagórica à qual tinha pertencido. Segundo pensamos o Eleata desejaria mostrar a distância que agora o separa da sua antiga escola.

Uma última consideração sobre os versos transcritos. Segundo penso não há uma terceira via mas sim uma variante da via da opinião. A digressão de Parménides teria como objectivo por em relevo aqueles que seriam os seus grandes adversários.

O frag. B8 (vv.1-49) vai indicar as características do ser.

Em primeiro lugar o ser é incriado e imperecível porque "é completo, inabalável e sem fim" (frag. B8, v.4). Desta forma os termos geração e destruição não têm qualquer sentido (frag. B8, v. 21).

O ser é também homogéneo, contínuo e imóvel (frag. B8, vv. 22-28). E como nada falta ao ser, isto é, ele é completo segundo Parménides, tem de ser finito (frag. B8, v.32).

Não nos é possível dar uma ideia da argumentação cerrada de Parménides nem do seu espirito que me parece dogmático. Porém, algumas considerações são indispensáveis:

  • a argumentação de Parménides a favor da existência do ser e da não existência do não-ser é brilhante. O não-ser não tem razão para existir. Se o não-ser existisse no princípio, seria contraditório que dele nascesse o ser; é contraditório porque admite que o ser vem do não-ser seria considerar que o não-ser possuía o ser. Da mesma forma o ser não pode perecer porque então o não-ser viria à existência o que é um absurdo porque tinha de se admitir que o ser possuía o não-ser;
  • ao considerar erróneos os termos geração e destruição Parménides vai considerar o movimento como ilusório; o chamado mundo sensível não têm sentido e não tem realidade;
  • convirá levar em linha de conta a continuidade do ser. Este aspecto vai contra a descontinuidade defendida pelos pitagóricos. Veremos mais tarde as consequências desta oposição;
  • por seu lado a finitude está em oposição à infinitude defendida pelos milésios. Sob o ponto de vista etimológico infinito, em grego, significava também imperfeição porque era algo de não acabado. Ora, Parménides ao considerar o ser como completo, isto é, como perfeito, concebeu-o, portanto, como finito.

Vejamos, agora, uma das passagens mais controvertidas do Poema:

"O que pode ser pensado e o pensar são o mesmo" (frag. 8, v.34)


Frequentes vezes esta passagem tem sido interpretada como a identificação do ser com o pensar. Mas segundo penso não é a melhor interpretação.

O que está aqui em causa é a natureza do pensar. Possivelmente Parménides considerava que o pensar não é algo que se defina com facilidade.

O pensar tem um determinado objecto que é o ser. Ou seja, se o real é o ser e se não existe mais nada para além dele só poderá chamar-se pensamento o acto que incide sobre o ser. Em contrapartida, em nossa opinião, quando não há a incidência sobre o ser, rigorosamente não há o pensar.

O discurso sobre a opinião vai desde o frag. B8, v.50 ao frag. B19.

É com estas palavras que se vai iniciar o discurso da deusa sobre o caminho da opinião:


"Com isto cesso o meu discurso digno de fé e o meu
pensar]
acerca da verdade. Sobre a humana opinião aprende,
a partir de agora, escutando a ordem ilusória das
minhas palavras.]" (frag. B8, vv. 50-52)


Esta passagem vai auxiliar-nos a compreender o sentido geral do Poema de Parménides. Neste momento o que nos vai interessar é a ordem ilusória que a deusa seguirá na última parte do Poema, parte esta que nos chegou muito fragmentada.

O que vamos encontrar no caminho da opinião é uma cosmologia de tipo tradicional. Os dois princípios (as substâncias primordiais) que vão dar origem às coisas são a luz e a escuridão (cfr. frag. B8, vv. 55-59). As coisas têm um nascimento e uma morte (frag. B19) e sabemos, igualmente, que a Terra está presa através de raízes aquáticas (frag. B15a).

Vamos transcrever, para uma breve análise, um frag. da última parte do Poema:


"Assim, segundo a aparência, as coisas se criaram e
ora existem,]
e depois disto crescerão e chegarão ao seu termo.
A cada uma delas os homens puseram um nome distintivo" (frag. B19).


Embora esta passagem pertença ao caminho da opinião ela é extremamente importante pois tem por objectivo a natureza da linguagem.

O frag. B19 mostra como nos inícios do séc. V o problema da linguagem já se punha, problema este de grande relevo a partir da segunda metade do mesmo século.

Para Parménides, segundo a via da opinião, os nomes correspondem às coisas, isto é, distinguem-se pelas diferentes denominações. A natureza da linguagem é permitir a compreensão das coisas por nomes distintos.

A compreensão global da filosofia parmenidiana é difícil e estamos muito longe de um consenso. O grande problema reside na articulação entre o caminho da verdade e o da opinião.

Segundo nos parece para Parménides os dois caminhos são incompatíveis: os frags. B1, vv. 28-32 e B8, vv. 50-52, que já citámos, apontam nessa direcção. Mas, se assim é qual a função do discurso da opinião?

Penso que a última parte do Poema é um exercício, um jogo, realizado por Parménides.

O filósofo quereria mostrar que a opinião pode dar azo a discursos enganosos, que podem passar por verdadeiros. Assim, por vezes, a opinião é difícil de refutar porque dá a sensação de verdadeira.

A posição de Parménides é importante na História da Filosofia. É inovador em relação aos seus antecessores e levanta uma série de problemas relevantes: a questão do ser, a desvalorização do mundo sensível, a ilusão do movimento.

Como veremos, ou defendendo-o ou atacando-o os filósofos posteriores não o poderão ignorar.



  • Empédocles de Agrigento

Com Empédocles de Agrigento a filosofia instala-se plenamente na primeira metade do séc. V.

Empédocles escreveu dois poemas, Acerca da Natureza e Purificação dos quais uma parte importante chegou até aos nossos dias.

*

Na base da sua doutrina encontramos as raízes do ser e um duplo movimento, o Amor e a Discórdia.

As raízes do ser são quatro: o fogo, a água, a terra e o ar. Anotemos, desde já, que Empédocles procede como se fragmentasse o ser de Parménides em quatro partes.

As raízes têm características que fazem lembrar o ser parmenideano: são incriadas, imperecíveis, sempre idênticas a si próprias e de igual dignidade (importância).

Por sua vez o Amor e a Discórdia têm como função, respectivamente, agregar e desagregar as raízes.

O que é importante é que para Empédocles não há o nascimento e a morte das coisas: a realidade é a agregação e a desagregação o que constitui um eco da influência de Parménides (cfr. frag. B17).

Com Empédocles estamos no pluralismo mas conhecedor das posições de Parménides tenta algo de extremamente difícil: embora haja quatro raízes (substâncias primordiais), estas apresentam algumas características do ser de Parménides enquanto o movimento é salvo no seu sistema.

Há uma grande diferença, não obstante, entre Empédocles e Parménides. O Agrigentino considera que o mundo sensível não é uma ilusão como não é uma ilusão as mudanças que se vão operando à nossa volta. O que chamamos o nascimento e a morte são as agregações e as desagregações de raízes que ao provocar as modificações que podemos verificar mantêm-se idênticas a si próprias.

Empédocles apresentou uma cosmologia, cuja complexidade não poderemos mostrar nestas linhas.

Há um ciclo cósmico que pode ser dividido em quatro fases:

  • Na primeira fase encontramos uma esfera na qual todas as raízes estão misturadas. A esfera é uma divindade, portanto, não antropomórfica.
  • A segunda fase inicia-se com o avanço da Discórdia do extremo para o centro da esfera. Através de um processo complicado surgem a Terra e dois hemisférios que giram em sentido contrário em torno da Terra. O Sol e a Lua não têm luz própria recebendo-a do hemisfério de fogo (o outro hemisfério é constituído por ar e fogo). A segunda fase representa o Universo no qual vivemos, isto é, a Humanidade só pode existir neste momento cósmico.
  • Da terceira fase, da qual temos poucas informações, podemos dizer que a Discórdia tem o domínio absoluto e que o Amor foi afastado para as extremidades da esfera. Totalmente separadas, as raízes possivelmente, formam quatro rodas concêntricas (uma por cada raiz).
  • A quarta e última fase representa, por sua vez, o avanço do Amor em direcção ao centro, misturando as raízes e preparando novo ciclo cósmico.

*

Se Empédocles trata das origens do Universo, a sua atenção virou-se, igualmente, para os seres vivos: nestes, podemos verificar quatro fases na sua evolução.

Um conjunto de membros e órgãos dispersos, formando um quadro estranhíssimo, constitui a primeira fase.

A segunda mostra-nos essas diferentes partes unindo-se, sem qualquer critério, ao acaso, dando origem a uma longa galeria de monstros.

A terceira fase oferece já uma imagem mais suave: os seres animais apresentam, agora, o aspecto que hoje possuem mas como são assexuados não se podem reproduzir.

Na última os seres conservando o seu aspecto anterior já podem reproduzir-se.

Duas observações sobre este tema:

  • as quatro fases em que se divide a história dos seres animais devem processar-se na segunda fase do ciclo cósmico;
  • é de notar a audácia e a imaginação prodigiosa de Empédocles.

*

Para além do tema estritamente cosmológico Empédocles, sob influência pitagórica, debruçou-se sobre o tema da alma.

Nas Purificações o filósofo fala-nos de uma Idade de Ouro na qual existia a harmonia entre os homens e também entre estes e os animais. É a época em que havia uma única divindade adorada com oferendas simples como pinturas e aromas.

Uma falta cometida terminou com este estado lançando o homem na existência penosa onde se encontram existem o sofrimento, a velhice e a morte.

As almas humanas que nesta existência não são puras são obrigadas a transmigrar (influência claramente pitagórica) para expiação das suas faltas. Com clareza, podemos ver que, segundo Empédocles, as almas podem reencarnar em animais e plantas (frag. B127) e o próprio filósofo confessa que foi rapaz, rapariga, arbusto, ave e peixe (frag. B 117).

As Purificações mostram como sob a influência do orfismo e do pitagorismo a reflexão sobre a alma passava a constituir um tema fundamental. E neste campo Empédocles é um exemplo de como o antigo corpo do saber se cruzava com a inovação.

*

Vamos terminar fazendo referência a dois aspectos do pensamento de Empédocles: a teoria das sensações e uma experiência realizada pelo filósofo.

Pelo que sabemos foi Empédocles o primeiro a preocupar-se com o estudo das sensações. Para o Agrigentino as coisas existentes lançam eflúvios, os quais entram nos órgãos dos sentidos provocando, então, as sensações. Mas neste caso como têm lugar as diferentes sensações, isto é, como há várias? A resposta de Empédocles é subtil: os órgãos dos sentidos têm poros e consoante a espessura dos eflúvios, estes entram nos poros que têm o diâmetro adequado, obtendo-se assim as sensações diferenciadas.

A experiência de Empédocles, que ele descreve no frag. B 100, feito com uma clépsidra, explicava o mecanismo da respiração e provava que o ar é pesado.

Quanto à experiência relatada no frag. B 100 duas observações:

  • não obstante o interesse da experiência de Empédocles, ela não faz do filósofo um experimentalista, já que se trata de um acto isolado;
  • os pré-socráticos, no seu conjunto, não foram, de forma alguma, os percursores do método experimental.


  • Zenão de Eleia e Melisso de Samos

Agrupámos no mesmo capítulo dois pensadores porque ambos pertencem à escola de Eleia. São dois homens que atingem o seu apogeu pelos meados do século V.

A filosofia por essa época estava difundida por uma vasta área da Hélade e é interessante notar-se que um natural de Eleia e outro de Samos pertençam à mesma escola.


1. Zenão de Eleia

Zenão de Eleia, discípulo directo de Parménides, ocupa um lugar de destaque na História da Filosofia não por ser um construtor de sistemas mas sim pelo seu pendor polémico.

Com alguma tradição filosófica atrás de si o Eleata compreendeu que a filosofia não era só doutrina mas também método refutativo.

Diremos em primeiro lugar que Zenão apresentou uma série de argumentos contra o movimento e a pluralidade.

Em segundo é de assinalar um problema de interpretação: quais são os adversários do Eleata?

Zenão apresentou quatro argumentos contra o movimento, dos quais apresentaremos um.


A -----------------------C----C'---C''---------------------------B


Um corredor (C) parte da extremidade do estádio (A) para atingir a outra extremidade (B). Depois de atingir a metade do estádio tem de percorrer a metade restante (C') e assim sucessivamente sem nunca chegar ao final.

Façamos, agora, algumas observações:

  • à primeira vista estamos perante um espaço finito (segmento AB) e tudo levava a crer que o corredor precisava de um tempo igualmente finito;
  • se o corredor não chega ao ponto B é porque qualquer porção de espaço é constituído por um número infinito de pontos;
  • o que podemos concluir é que estamos perante uma determinada concepção de espaço: este, sendo constituído por um número infinito de pontos não pode ser percorrido num tempo finito, o que seria um absurdo.

Zenão pretende mostrar, com os seus quatro argumentos, que o movimento, pelo menos numa determinada concepção de espaço, é absurdo.

A argumentação contra a pluralidade por parte do Eleata é igualmente importante e merece um apontamento preliminar.

No tempo de Parménides e Zenão tinham surgido não só as concepções de movimento e infinito, que aliás eram anteriores à escola de Eleia, assim como a concepção do real como pluralismo a qual vai ter os seus máximos representantes no final do período pré-socrático.

Zenão vai criticar o pluralismo levando as suas consequências ao absurdo.


"Se a pluralidade existe, as coisas serão igualmente grandes e pequenas; tão grandes que serão infinitas em tamanho, tão pequenas que não terão qualquer tamanho" (frag. B1 - K. e R. - trad. port.).


Os frags. de Zenão têm permitido diversas interpretações. Avançaremos com a nossa interpretação que tentará resolver algumas dificuldades postas pelos frags. deste filósofo.

Na passagem transcrita, segundo pensamos, as coisas deverão ser entendidas como conjuntos de unidades, ou seja, de corpúsculos. Se os corpúsculos não têm dimensão nesse caso as coisas são igual a zero, isto é, serão inexistentes o que constitui um absurdo. Se os corpúsculos, que serão infinitos em cada coisa, têm dimensão, neste caso cada coisa será infinita. Ora, se existe um conjunto de coisas em que cada uma é infinita encontramos o absurdo ao contemplar um mundo cheio de infinitos. Ao que nos parece, o que dissemos é confirmado por outra passagem de Zenão:


"Se a pluralidade existe, as coisas que existem são infinitas; pois haverá sempre outras coisas entre as coisas que existem, e ainda outras entre essas outras. E assim as coisas que existem são infinitas" (frag. B3 - K. e R. trad. port.).


Uma questão que ainda, hoje, se discute é a de saber quais são os adversários de Zenão. Temos sempre considerado que o alvo são os pitagóricos. No dizer de Kirk e Raven estes confundiram os números, corpúsculos e pontos geométricos: tanto na concepção de linha, composta por um número infinito como de coisa a qual é um aglomerado de unidades. Isto quer dizer que o conceito de realidade visado por Zenão é o dos pitagóricos.



2. Melisso de Samos

Melisso, partidário de Parménides, não é um crítico como Zenão mas procura consolidar a teoria do ser apresentada pelo seu mestre.

As críticas dirigidas a Parménides levam Melisso a introduzir uma modificação na doutrina eleata: o ser passa a ser infinito. É provável que Melisso antes de abraçar o eleatismo estivesse ligado à doutrina milésia. Compreendia-se assim que ele não estivesse tão interessado na finitude como o estava Parménides.

Ao defender a infinitude Melisso desejava resguardar a teoria do ser contra as críticas que podiam colocar o vazio ou outros seres ao lado do ser. Ora, se o ser é infinito, é um plenum, não deixa lugar para mais nada.

Façamos, agora, para terminar uma referência ao frag. B8.. Em resumo, o filósofo diz que se o ser fosse fragmentado, ou seja, se houvesse uma pluralidade, era necessário que cada ser fosse como ele descreve o uno. Há aqui uma subtileza segundo a qual Melisso desejava mostrar a impossibilidade, o absurdo, do pluralismo.



  • Anaxágoras de Clazómenas

Anaxágoras ocupa um lugar de destaque na vida da cidade de Atenas. Contemporâneo de Péricles, pertenceu ao seu círculo e possivelmente foi seu conselheiro. Podemos dizer que com Anaxágoras a filosofia instala-se em Atenas.

Para este jónio da Ásia Menor o grande problema era a origem do Universo. E a base da sua explicação era a existência de uma mistura originária e a do Espírito.

Vejamos, em primeiro lugar, o que é a mistura originária.

No início todas as coisas estavam misturadas, era uma amálgama de elementos "e uma quantidade infinita de sementes que em nada se assemelhavam umas às outras" (frag. B4 - trad. M. H. R. Pereira).

Quanto ao Espírito vamos transcrever algumas passagens do frag. B12:


"o espírito é ilimitado e autónomo e não se mistura com coisa alguma, mas existe só, de per si (...) é a mais subtil e a mais pura de todas as coisas, e possui conhecimento completo de tudo e o maior poder. E o espírito tem poder sobre tudo o que tem vida, seja maior ou menor" (trad. M. H. R. Pereira).


O Espírito é a outra entidade que está presente no início do processo cosmológico. Anaxágoras não lhe chama divindade mas as características apontam para essa designação: ilimitado, autónomo e com o conhecimento e o poder sobre todas as coisas.

O universo, tem o seu início devido à acção do Espírito. É este que inicia o movimento de separação dos elementos amalgamados, movimento esse que cada vez será mais amplo.

Da mistura originária com a acção do Espírito passa-se à separação dos elementos, primeiro o ar e o éter depois a Terra forma-se do espesso, do frio e do escuro e o leve, o quente e o húmido formaram a parte exterior à Terra.

A Terra é plana, sustentada pelo ar e o Sol, a Lua, as estrelas são pedras ígneas levadas pelo movimento do éter.

Digamos, ainda, que para Anaxágoras o Sol é maior do que o Peloponeso e a Lua tem planícies. Influência dos milésios e audácia na concepção cosmológica marcam o pensamento de Anaxágoras.

Alguns aspectos da sua doutrina, a que nos vamos referir, mostram a envergadura filosófica de Anaxágoras.

Quando se passa da mistura originária para as coisas que constituem o Universo não há aumento nem diminuição da matéria (cfr. frag. B5). É um aspecto importante porque se trata de uma resposta à crítica de Zenão ao pluralismo. O que Anaxágoras quer dizer é que em qualquer momento do processo cosmológico a quantidade de matéria permanece rigorosamente a mesma.

Anaxágoras é um filósofo subtil e isso pode ver-se na concepção que ele tem das coisas. Qualquer coisa que consideremos tem uma porção de todas as coisas, ou seja, qualquer existente é um aglomerado de todas as substâncias. Vejamos alguns problemas que se colocam numa concepção deste tipo.

Como é que uma coisa difere de outra?

A esta pergunta, segundo pensamos, responderia Anaxágoras dizendo que uma coisa difere de outra pela predominância de um elemento: é o predomínio de um determinado elemento que introduz a diferença entre as coisas.

Até que ponto se pode dividir uma coisa?

Para o filósofo a divisão prosseguindo até ao infinito encontrará sempre uma porção, isto é, a divisão infinita não desemboca num zero. Mais ainda: a porção que se vai encontrando tem sempre algo de todas as coisas. É ainda a resposta a Zenão de Eleia.

Anaxágoras está atento aos eleatas e à medicina do seu tempo.

Em relação aos primeiros, Anaxágoras vai estar de acordo com a afirmação de que as coisas não nascem nem morrem: o que existe são agregações e desagregações. E como já dissemos, o filósofo esteve atento às críticas de Zenão contra o pluralismo.

A noção de que cada coisa tem uma porção de todas as outras deve ser inspirada na medicina grega. A medicina, contemporânea de Anaxágoras, interessava-se pela dietética e sobre este tema surgiram vários tratados.

Vejamos uma questão, para ilustrar este ponto: como é que um grão de trigo alimenta o cabelo, os ossos, as artérias?

A resposta a esta questão, na perspectiva de Anaxágoras é a seguinte: o grão de trigo tem porções de todas as coisas e é por isso que pode alimentar as várias partes do corpo humano. Ora, a ideia de um determinado alimento exercer influência sobre vários órgãos ou partes do corpo devia ter constituído a base para a teoria geral de Anaxágoras.

Para terminarmos esta abordagem façamos uma referência à posição de Anaxágoras sobre a superioridade do homem.

Esta reflexão do filósofo insere-se num interesse já manifestado nos inícios da filosofia. A origem dos seres vivos, a controvérsia entre a degradação e o progresso da Humanidade são temas tratados antes de Anaxágoras. Este filósofo, todavia, vai mais longe e procura saber o que faz a superioridade do homem: segundo ele, é a utilização das mãos que torna o homem superior aos outros animais.

A questão de saber como o homem evoluiu, quais as suas conquistas ao longo dos tempos, vai ser abordada por filósofos e literatas na segunda metade do século V.




OS ATOMISTAS

Os atomistas constituem a escola de Abdera cujo fundador é Leucipo de Mileto ou de Eleia. É difícil saber o que pertence a Leucipo e o que pertence ao seu discípulo Demócrito de Abdera. Com a escola de Abdera não só é ocupada a segunda metade do séc. V como as primeiras décadas do séc. IV o que faz com que Demócrito sobreviva a Sócrates e seja contemporâneo de Platão.

As bases da doutrina atomista são lançadas por Leucipo e podem resumir-se da seguinte maneira:

  • o real é constituído por átomos e vazio;
  • os átomos são o ser, o vazio o não-ser;
  • tanto o ser como o não ser têm uma existência plena.

Demócrito explicava a formação dos mundos e das coisas através dos átomos e do vazio. Ora, como isto é possível?

Para respondermos a esta questão temos de saber o que é o átomo para a escola de Abdera.

O átomo é uma partícula de tamanho variável, quase sempre invisível ao nosso olhar e indivisível. A sua forma é igualmente variável: redonda, côncava, pontiaguda, etc..

Demócrito estava de acordo com Parménides neste ponto: não há nascimento nem morte. O que existe, na sua perspectiva, são agregações e desagregações de átomos.

Os átomos estão animados de movimento; se o átomo é incriado e imperecível, o movimento é igualmente eterno.

Animados pelo movimento os átomos entram no vazio e por vezes chocam uns com os outros; se for grande o seu número pode haver um vórtice, origem de um mundo. O tamanho, a forma, a posição pela qual se colocam explicam o aspecto diferenciado das coisas.

Desde já podemos fazer algumas observações:

  • não existe uma divindade que esteja na origem dos mundos;
  • a diversidade das coisas não se deve a qualidades diferentes: estas não existem, o que existe, como diz Demócrito, é o vazio e os átomos.

Demócrito foi defensor, assim como Anaxágoras, de mundos inumeráveis. O filósofo tem uma intuição admirável: há mundos que têm vida e outros não, a alguns pode faltar este ou aquele astro. Há aqui uma antevisão aproximada daquilo a que nos diz a cosmologia contemporânea.

Já dissemos que Demócrito não reservou qualquer função aos deuses na génese dos mundos. Acrescentamos que o filósofo não negando a existência dos deuses vai considerá-los mortais retirando-lhes a sua principal prerrogativa.

Demócrito, o último grande pré-socrático, apresenta algumas características interessantes: é autor de dezenas de títulos e defensor de um cosmopolitismo expresso no frag. B249:


"O sábio pode andar por toda a Terra pois a pátria de uma alma boa é o mundo inteiro" (trad. M. H. R. P.).




Conclusão da Segunda Parte

A Segunda Parte destes Apontamentos foi dedicado aos pré-socráticos, terminando com Demócrito de Abdera. Nesta Parte não tratei dos sofistas (que, por vezes, são incluídos na filosofia pré-socrática) porque considero, que estes apresentam novas perspectivas (ver Terceira Parte).

Na minha opinião, os pré-socráticos são os primeiros filósofos e, assim, considero que a Filosofia não surgiu na segunda metade do século V, como alguns defendem.

Em parte, pelo menos, a designação pré-socrática é um atestado de menoridade. Segundo a interpretação mais corrente Sócrates introduziu no campo da Filosofia a reflexão fundamental. Assim, os pensadores, antes de Sócrates, não alcançaram o nível do mestre de Platão. Discutiremos este tema na Terceira Parte destes Apontamentos.

Todavia, acrescento, agora, um aspecto cronológico: alguns pré-socráticos são contemporâneos do próprio Sócrates e, por exemplo, Demócrito sobrevive vários anos ao filósofo ateniense.

Repetindo o que já disse, penso que a Filosofia nasce com Tales e consolida-se até aos meados do século V.

É certo que os pré-socráticos se preocuparam com a cosmologia. Mas esta continha a génese, evolução e arquitectura do Universo. Este é, em minha opinião um problema filosófico na Antiguidade.

A importância da temática cosmológica está bem atestada nos nossos dias.

A filosofia para os pré-socráticos constituía uma unidade e só a partir da segunda metade do século V surgem várias áreas dentro da filosofia.

Contribuições para as áreas que surgiram mais tarde foram fornecidas, todavia, pelos pré-socráticos, inseridas, como já disse, numa globalidade constituída pela preocupação cosmológica.

Reflexões sobre os deuses e os homens (recorde-se o tema da alma) foram extremamente importantes para o pensamento posterior.

Acrescentarei, ainda, o que aliás não foi muito frequente, as observações de alguns pré-socráticos sobre o tema do conhecimento.

Não é minha preocupação fazer um balanço, amplo, das contribuições dos pré-socráticos para a filosofia posterior.

A exposição que realizamos e que constitui, apenas, uma síntese, foi orientada no sentido de mostrar a importância dos primeiros filósofos.

A conclusão da Segunda Parte dos Apontamentos pretende reforçar, com algumas notas, o que pretendi defender: a filosofia nasce com Tales de Mileto e consolida-se com os seus sucessores, a que chamamos pré-socráticos. E neste linhas quis afirmar, novamente, que a filosofia não surge na segunda metade do século V.

Terminarei com mais algumas, breves, considerações:

  • É a preocupação cosmológica que vai continuar no século IV (veja-se o caso de Aristóteles);
  • É o pensamento de vários pré-socráticos que vai ser levado em linha de conta, a partir da segunda metade de século V;
  • É entre outras figuras, a presença de Heraclito e Parménides, no século IV, que é fundamental.

*

Nota adicional à Segunda Parte

Indicarei os autores e respectivas obras a que pertencem as traduções utilizadas:

  • M. Helena da Rocha Pereira, Héláde, Coimbra, 1982, 4.ª ed.
  • Kirk e Raven, Os filósofos pré-socráticos, Lisboa, 1979. Trad. Carlos Fonseca, Beatriz Barbosa e M. Adelaide Pegado.


©Álvaro dos Penedos

"Os Filósofos Pré-Socráticos" foi extraído de Os Dias de Deméter


Obs.: este texto também pode ser encontrado no site da A.F.A. - Associação Filosofia Antiga sob Conteúdos/ Iniciação à Filosofia Antiga ou directamente através deste link.